Literatura, humor, cultura, moda, culinária e estéticas negras (masculina em especial), informação e entretenimento estão presentes no blog. Desejo construir em conjunto algo que seja interessante para todos os leitores. A ideia é poder utilizar a cultura digital como ferramente de divulsão da cultura negra. Estamos juntos!
sexta-feira, 3 de julho de 2015
Agonia:
Ponto final que nunca chega. Círculo que não se fecha. Avião que não voa no ar. O homem inteiro em plena tristeza podendo dormir, mas sem um pingo de sonhar. Perna boa que não caminha, braço forte que não labuta, olho que ver e não enxerga, ouvido que ouve, mas não esculta. Soldado valente tão frio na batalha. A lenha bem quente esfriando a fornalha. Anjo e suas asas caindo pro nada. Menino e menino, menina e menina, menino e menina se amando, podendo, mas a dúvida atrapalha. O medo paralisante. O perigo constante. A vida eterna deselegante. Rosa cheirosa isola no canteiro. Laço bonito escondendo o passarinheiro. Comida no prato, metade no lixo, enquanto na rua a fome é abrigo. Cobertor bem quentinho guardado num canto. O abraço apertado buscando carinho. São as lágrimas guardas querendo desaguar. Rio glorioso impedido de se encontrar com o mar. Mãe protetora com o filho nos braços, gritando aos prantos - o pó deu-lhe o último abraço. Alegria mais linda nos olhos da criança sendo diminuída com trabalho e desesperança. Cachorro ansioso para que o dono chegue do trabalho. O dono que chega e nega ao cão o afago. Deus querendo saber o que será da Terra. Homem e seu ego atropelando quem não tolera. Vida e Morte cantando pro mundo que tudo começa e se encerra. De onde vinhemos? Para aonde vamos? Vamos?
terça-feira, 23 de junho de 2015
Eu-gaiola
Na gaiola estavam presos meus medos:
Abrir a portinha
Eles voaram para perto.
Longe estão minhas verdades.
Não destruir minha gaiola
Nem joguei fora meus medos.
Eles têm essa morada
Toda vez que as verdades rígidas quiserem se aproximar.
Os medos voltam à gaiola
Cantam alto
Espantam as verdades rígidas
E saem - a portinha sempre está aberta.
Gaiola boa não prende, nem é abrigo
O perigo é fechar a portinha dela
E eu preso fugir de mim.
Abrir a portinha
Eles voaram para perto.
Longe estão minhas verdades.
Não destruir minha gaiola
Nem joguei fora meus medos.
Eles têm essa morada
Toda vez que as verdades rígidas quiserem se aproximar.
Os medos voltam à gaiola
Cantam alto
Espantam as verdades rígidas
E saem - a portinha sempre está aberta.
Gaiola boa não prende, nem é abrigo
O perigo é fechar a portinha dela
E eu preso fugir de mim.
terça-feira, 16 de junho de 2015
APOCALIPSE NOT
Não
quero voltar. Não quero voltar agora. Já não sei tudo valeu a pena. Já não sei
se minha passagem foi pequena e insuficiente. Meu sofrimento por vós se corrompeu.
Agora se torna justificativa para sacrificar o outro; invalidado estar o meu
sacrifício.
Aonde
errei em meus passos? Que cura eu não fiz que não pudesse ser tomada como
exemplo para que vós também utilizásseis do meu nome para curar? Que amor eu
não preguei para que meu amor tu não pudesse multiplicar? Que dor eu não sofri
para que teus olhos de tristeza não pudessem transbordar?
Jazo
em plena psicanálise. Entreguei meus pensamentos a Sigmund Freud. Preciso
mergulhar na minha subjetividade para descobrir quais dos tropeços dados na
via-crúcis desviaram o caminho que tracei para a humanidade. Preciso conversar
com o Pai. Há uma pane na configuração da escuta dos filhos de Eva. Se de amor
contaminei-os por excesso, algum dos vendedores não recebeu a devida chicotada.
Eles
não corrompem a filosofia de Gandhi. Não destroem os mantras de Buda. Não se distorce
as lições de Irmã Dulce. Se o fazem não o fazem com a mesma proporção de quem alteram
os meus ensinamentos. Há uma relação entre guerra e paz. Entretanto jamais fui
um homem de fomentar guerra. Tão pouco desprestigiei a paz. Foi o amor que
norteou a minha palavra, o perdão pedra fundamental para transcender a vida, a
ternura reforça que somos a imagem e semelhança Deus.
Lembro-me
do peso multiplicado do meu corpo. Lembro-me da textura da madeira. Lembro-me
da lança afiada e das chicotadas. O chão com meu sangue foi lavado. O mar com
minhas lágrimas foi salgado. Nenhum animal será sacrificado. Nenhum homem será
atormentado. Todo ser humano merece ser amado. Antes de vomitar meu nome,
lembre-se das minhas dores, das minhas ações, das minhas recomendações. Seja
verdadeiro consigo, comigo e com a multidão.
Preciso
então que você mate teu diabo. Apague as chamas e feche as portas do teu inferno.
Já não quero ouvir lamentações sobre tudo aquilo que faz sofrer e que eu nunca
fiz existir. Tranquei a besta em um porão do esquecimento. Não vou voltar até
vocês aprenderem a lição. Todos imundos e encardidos, em pleno exercício da misericórdia,
precisam urgentemente, não mais na fé, mas na prática serem irmãos. Do céu não
cairá fogo. A terra não inundará. No coração dos poetas, loucos e dançarinos um
rosa nascerá. Estar cancelado o apocalipse, até terceira opinião. Preciso que a
humanidade por si só brilhe- vamos levar luz à escuridão.
O mundo não vai acabar, renascerá no fim do arco-íris,
na primavera mais linda, ali pertinho do Japão.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
O BOTE DA COBRA MANSA

Minha
vida é quase perfeita. Eis aqui o Dr. Sergio: um dos mais respeitados advogados
de Salvador. Apesar de atrair a atenção das mulheres não dou muita bola para as
oferecidas. Sou casado e bem casado com a bela é Mariana.
No
carnaval de 2009 estava eu e meu grande amigo, o Henrique, no Bloco Camaleão, uma
maravilha! Em meio ao pula-pula eletrizante da festa me bati com a negra de cor
de jabuticaba. Nossos olhares se cruzaram. Coloquei meu colar de Gandhi em seu
pescoço e a agarrei dando-lhe um gostoso beijo. Apaixonei-me por aquela mulher
em pleno carnaval. Meu amigo Henrique pegou no meu pé, pois carnaval é tido
como uma festa para curti e não para se apaixonar. Só que para o amor não há ocasião
certa. Ficamos juntos durante os outros dois dias que faltavam para acabar a
festa. Ligávamos um para o outro a todo o momento. Tive medo de a gata morar em
outra cidade ou em outro ou Estado. Mas não. Ela era soteropolitana! Poderíamos,
então, desenvolver o relacionamento.
O carnaval passou. Flertarmos durante um bom
tempo. A pedir em namoro. Dois meses depois já morávamos praticamente juntos. Após
cinco meses de convivência casamos.
O
Henrique, aquele que me chacoteou por eu ter passado todo o carnaval com
Mariana, acabou sendo também o padrinho do meu casamento. Um cara muito legal,
companheiro, fiel, nunca tivemos uma briga séria. Ele sempre esteve presente
nos grandes, pequenos, alegres e turbulentos momentos da minha vida. Conheci
Henrique ainda garoto, com treze anos. Ele era mais novo. Eu morava em Brotas e
aquele novo amigo chegara de Santo Antônio de Jesus, pois seu pai conseguira um
novo emprego na capital baiana. Morávamos no mesmo prédio, seu pai ficou amigo
do meu, e sempre jogavam xadrez juntos. Ele sempre acompanhava o seu velho, mas
da mesma forma que eu, não tinha ainda paciência para o complexo jogo de
adultos. Jogávamos vídeo game a noite toda. Nunca fui de muitos amigos. A
amizade de Henrique era suficiente. Crescemos juntos e passamos a estudar na
mesma escola. Brigávamos um pelo outro – e olhe que não foram poucas as brigas.
Até que depois do ensino médio, demos uma separada: eu fui cursar direito e o
Henrique foi fazer engenharia civil. Nós nos víamos em alguns finais de semana.
Depois da tempestade da graduação podemos nos encontrar algumas vezes.
Henrique
é elegante, boa pinta e sempre fora um garanhão. Há um tempo arranjou uma
namoradinha que frequentava a minha casa. A garota até ficou amiga de Mariana,
mas o relacionamento dela com o Henrique acabou; traição, por parte dele, é
claro! Ele, depois de um preconceituoso distanciamento, se aproximando de
Mariana.
Ontem
cheguei em casa e como sempre dei um beijo na minha companheira. Ela retribuiu,
mas os seus lábios tinham um sabor diferente. Sabor de mistério. Perguntei se
estava acontecendo algo errado e a mesma apenas disse que sentia um pouco de
dor de cabeça. Mal estar repentino de mulher é sinal que alguma coisa errada
paira pelo ar. Elas sempre escondem a verdade na dor. Acredito que a dor que muitas
sentem é resultado do acúmulo de mentiras que ainda não foram externadas.
Reforcei a pergunta: “está acontecendo alguma coisa?” Mariana disse que não.
Mudou o seu tom frio para outro mais receptivo. Disse-me sorrindo: “vá tomar
bando amor, fiz um jantar maravilhoso”. Dei outro beijo nela e fui para o banho,
lá comecei a pensar na sua recepção nada calorosa. Marina sempre me acolhia
muito bem. Nunca sentir tal frieza. Por outro lado, se ela estivesse com algo
lhe afligindo certamente diria: minha esposa nunca foi de segredinhos.
Jantamos. A comida de
fato estava deliciosa. Conversamos sobre diversos assuntos e o astral da minha
amada já mudara. No entanto, seu sorriso, em alguns momentos, saia um tanto
forçado. Acabamos de janta e fomos para o quarto. Deitamos, ligamos a TV e ela pois
a cabeça sobre o meu peito. Falamos sobre algumas coisas do nosso dia-a-dia. depois,
relaxados, fiz novamente a pergunta: “amor eu te conheço, percebi pelo seu
jeito que estar acontecendo alguma coisa errada ou que está lhe incomodando, por
favor, fale o que é!” Marina respirou fundo e disse: “ desculpe amor, eu não
consigo esconder nada de você mesmo. Está bem, eu vou falar...”
Eu a olhei e reforcei que
ela poderia falar sem medo. Mariana continuou: “sabe... eu estou ha algum tempo
em casa, sem trabalhar... sou formada em enfermagem, deixei meu emprego para
organizar a nossa vida de casados, mas...”. Olhei atentamente para suas pupilas
e a confortei: “isso não é problema algum. Você não precisa trabalhar. Estar
aqui cuidando da casa e se preparando para em breve ser a mãe de nossos filhos
e...” Marina me interrompeu: “eu sei, mas isso me frustra um pouco. Vejo minhas
amigas todas trabalhando...”.
Ela
estava incomodada em ficar em casa na inércia. Conseguiu um emprego em uma
clínica médica. Eu hesitei bastante com a ideia dela voltar a trabalhar. Já
estava acostumado com a sua presença diária e com os cuidados que tinha comigo
e com a casa. No entanto eu não podia agir como um machista, idiota, arcaico.
Disse a Mari que poderia ir, mas que sentiria por não tê-la constantemente.
Resolvemos que contrataríamos uma diarista para fazer as atividades domésticas.
Tudo resolvidos vir o seu semblante de felicidade. Foi o suficiente para nos
rolarmos em uma gostosa noite de amor...
Seguimos
os dias plenamente felizes. Acabei me acostumando com a ideia de Mariana Trabalhar.
Só que tal felicidade não duraria muito tempo. Mariana começou a ter horários
diferentes no seu trabalho. Não trabalhava mais pela manha, sempre era à tarde
e às vezes à noite. Desconfiei da minha esposa. Ela parecia normal. Eu sempre
perguntava, disfarçadamente, sobre os horários no que ela respondia: “coisas do
trabalho amor”, “tive que cobrir o horário de uma colega”, “o médico resolveu
atender até tarde”. A ideia de que Mariana poderia estar fazendo algo errado
começou a se fortalecer na minha mente. Seus horários ficaram cada vez mais
tardes. Resolvi que deveria contratar um detetive para segui-la. Procurei um no
jornal. Achei. Liguei para o mesmo. Ele disse que o serviço duraria um tempo
indeterminado, pois nem sempre na primeira busca encontraria algum fato
incriminador. Teria que ficar atrás da minha esposa durante, pelo menos, uma semana.
Meu coração acelerou quando ele disse, após eu ter contado o que estava
acontecendo, que pela sua experiência, de fato, algo negativo poderia estar
acontecendo. Eu não admitiria uma traição. Eu, um homem procurado por muitas
mulheres, nunca a trair. Não sei o que eu faria se Mariana estivesse... Fui até
o escritório do detetive e pedi que ele iniciasse as investigações.
Passaram-se
quatro dias. O detetive ligou. Pediu que eu me dirigisse ao seu escritório,
pois tinha novidades. Fui ao seu encontro. Ele me recebeu com um olhar de
piedade que deu até medo. Falou, com muita precaução na voz, e entregando um
envelope, que minhas suspeitas estavam, enfim, confirmadas. Fiquei trêmulo.
Sentei no sofá do escritório. Ele disse que as fotos estavam dentro do envelope.
Encontrara Mariana com um homem entrando num motel luxuoso. Rasguei o envelope
com grande raiva. Não acreditei no que meus olhos presenciaram. A punhalada era
dupla. Mariana estava abraçada com ele. Ele que eu jamais pensaria. O meu
melhor amigo: o Henrique! Chorei desesperadamente. O detetive pediu calma e
deu-me um copo com água. Depois de algum tempo de lamentações, respirei. Paguei
o detetive pelos seus serviços e pedi ao mesmo o endereço do motel. Aquilo não
poderia ficar assim.
Voltei
para casa tentando disfarçar a dor da punhalada que acabara de receber. Minha
esposa e o meu melhor amigo, meu irmão, me traíram. Não faria nada de imediato;
queria ganhar tempo para resolver aquela situação de forma que ambos pagassem
pela dor que eu estava sentindo. Disfarcei com muita força: a vida seguiria,
com beijos, sexo e juras ainda mais ardentes.
Passaram-se
15 dias da descoberta. Segui algumas vezes a Mariana e guardei o horário dos
encontros. Eram duas ou três vezes na semana notando que a sexta-feira era
sagrada. Chegara à sexta-feira do seu encontro. Segui todo o percurso de
Mariana.
Mariana
saiu do trabalho ás 17 horas, sendo que ela tinha me dito que só sairia ás 20h30min.
Passou em uma loja, comprou um belo vestido e seguiu em direção ao motel na
Barra. Eu a olhava com sorriso entre os lábios. Mariana parou o carro em frente
ao estabelecimento. O recepcionista lhe deu uma chave. Certamente, o amante já
estava a sua espera. Passaram-se 13 minutos. Esperei mais um pouco. De repente chegou duas viaturas. Fiquei
assustado. O que estava acontecendo? Os policiais entraram no motel. Depois de algum tempo Mariana era trazida por
uma PM que a colocou no camburão. Olhei atentamente para tudo. O camburão, onde
Mariana estava, seguiu para delegacia e eu fiz o mesmo.
Chegado à delegacia, Mariana sai do carro
chorando muito. Demorou mais algum tempo e meu telefone tocou: era ela. Disse
para eu ir ao seu encontro, pois a mesma estava presa. Dei um tempo, saí do
carro e fui até ela. O delegado era um conhecido meu. Disse-me o que estava
acontecendo: “Me desculpe pela notícia Dr. Sergio, mas... sua mulher está
presa. Ela está sendo acusada de matar o amante enforcado no motel.” Fiquei
paralisado. Olhei chocado para delegado e disse: “avise a Mariana que venho
vê-la amanhã”. Sai do local com as emoções confusas.
Noutro
dia fui ver Mariana. O delegado levou-me ao seu encontro. A mesma já estava em
uma sala reservada para a nossa conversa. Ele nos deixou a sós. Ao me ver a assassina me abraçou pedindo
perdão. Eu a afaste e dei-lhe uma bofetada. Mariana caiu sobre a mesinha da
sala. Esbravejei: “sente aí!” Ela, ainda assustada por causa do bofetão
recebido, sentou e me olhou. Tornei-me, aos seus olhos, um desconhecido.
Perguntei: “Por quê? Por que tudo isso? Por que me traiu? Por que tinha que ser
justamente com o Henrique?” Com o impulso advindo da raiva, pela bofetada que
eu lhe dei, a ordinária soltou com força o que eu tanto pedir para ouvir:
“Quando
me encontrei contigo no carnaval, antes já tinha beijado o Henrique. Foi algo
rápido. Depois te vir. Te achei um gato e o beijei. Coincidentemente ele era
seu amigo. Não gostou da minha aproximação, mas eu não liguei: estávamos em um
carnaval, não devia satisfação a ele. Eu gostei de você. Ficamos juntos durante
toda a festa. Permanecendo a paixão, namoramos e casamos. Mas durante o nosso
tempo de namoro eu fui atrás dele. Me aproximei e o atraí para minha teia. Eu
gosto de você, mas sentia um forte tesão pelo Henrique. Ele hesitou. Um dia
fiquei nua em sua frente. E, então, ele se entregou à mim. Me comeu com força e
a parti daquele momento formamos uma pacto sexual, sem nenhum envolvimento de emoções
complexas. Os encontros, no começo, eram ocasionais. Eu queria mais e ele
igualmente. Henrique conseguiu um trabalho para mim na clínica de um amigo. Eu
ia para lá, ficava o horário normal e fazia hora extra no motel. Foi maravilhoso
durante todo esse tempo.”
Mariana chorou,
respirou fundo e continuou:
“Ontem,
quando fui ao encontro do Henrique, ao entrar no quarto, já o encontrei morto.
Ele estava pendurado em uma corda feita com os lençóis da cama, uma cena
terrível! O pescoço estava quebrado e sua cara dizia que tinha sofrido bastante
antes de morrer. Eu sei que você não pode acreditar, mas não fui eu que o
matei. Sei também que estar com raiva de nós dois. Sim! Fui eu que fiz toda
essa história se desenvolver dessa forma. Eu sou a culpada de tudo. Ele sempre
falava de você. Falava da sua amizade, da sua companhia; eu me sentia um pouco
mal por isso. Não tão mal a ponto de interromper o nosso caso. Quero também
descobrir quem o matou. Essa culpa eu não posso carregar comigo. Eu juro não fui
eu! Não fui eu que o matei.”
Eu
olhei para a cara chorosa de Mariana. Aquela mulher que um dia eu jurei amor
eterno no altar. Só que não sentia pena dela, pelo contrário, comecei a soltar
um leve sorriso que, aos poucos, foi se abrindo mais, até eu dá uma gostosa
gargalhada. Ela olhou para mim com cara de quem não estar entendendo nada. A
encarei atentamente. Interrompi o meu riso desenfreado e comecei a revelar a
minha verdade:
“Meu
anjo é extraordinário, mas meu demônio é melhor ainda. Quando conheci o
Henrique, na época em que o seu pai jogava xadrez com o meu, apaixonei-me por
ele no momento em que o vir. Eu era um pouco mais velho, mas o suficientemente
atrevido para atraí-lo para meus interesses. Virei seu melhor amigo, sempre me
insinuava e ele, por sua vez, retribuía, ainda com vergonha das minhas
‘indecências’. Passado algum tempo, quando tínhamos entre 15 e 17 anos, trocamos
um beijo. Eu aproveitei a saída do meu pai, o tranquei no meu quarto, joguei-o
na minha cama e tivemos, então, a nossa primeira noite de amor. O nosso romance
durou até depois do ensino médio. Brigamos por causa de um envolvimento dele
com uma garota que era da nossa classe. Veio a faculdade, cada qual foi para
seu lado. Estávamos magoados, mas terminado a época de estudos, as mágoas já
estavam secas: resolvemos reatar o romance.”
Mariana congelou. Eu me
levantei e continuei revelando a minha história:
“Eu sempre quis ser um cara respeitado
socialmente e bem posicionado. Resolvemos, então, que a nossa relação deveria
manter-se, por segurança, sempre secreta. Cada um teria que arranjar uma
namorada e quem sabe até casar-se. Naquele carnaval nós estávamos juntos,
curtindo a festa tranquilamente. Ele ficou com você e eu vi tudo de longe. Ele
veio até mim e falou de você, disse para eu me aproximar, pois você parecia ser
uma moça interessante para um relacionamento de reconhecimento social. Segui o conselho
do Henrique. Me ‘esbarrei’ contigo. Apaixonei-me. Uma falsa paixão: é claro!
Paixão que tinha por objetivo arranjar uma mulher apresentável. O plano
culminou no nosso casamento. Legal até certo ponto, mas mera estratégia de
marketing. Como poderia um grande advogado como eu ficar solteiro?”
Olhei bem nos seus
olhos e continuei:
“Durante todo esse tempo eu e o Henrique
estávamos juntos, nos amando, planejando até uma mudança de país depois da
minha aposentadoria. Iríamos para um lugar onde as pessoas aceitassem o nosso
amor de forma mais tranquila. Só que ele começou a ficar estranho e você
também. Passei a desconfiar que algo estivesse errado. Como os meus encontros
com o Henrique estavam cada vez mais difíceis, por causa do meu trabalho,
tornou-se complicado descobrir o que estava acontecendo com ele, mas com você era
muito mais fácil. De alguma forma compreendi que descobrindo o que você estava
fazendo eu descobriria o que estava acontecendo também com ele. Contratei um
detetive que te seguiu durante alguns dias e que revelou, após algumas buscas, a
traição de vocês. Resolvi que isso não ficaria assim. Como poderia uma
ordinária que eu pus na minha casa querer roubar o homem que eu conquistei
desde a minha infância? Henrique era o amor da minha vida. Não admitiria que
nenhuma pessoa se intrometesse na nossa história. O distanciamento que ele
tinha comigo agora estava justificado: ele não queria só sexo com você, ele
estava te amando.
Mas
eu não permitiria: marquei os horários dos seus encontros. Escolhi o dia de
ontem. Consegui o contato de um trabalhador do motel que me deu algumas dicas.
Disse qual era o quarto que vocês costumavam ficar. Ele chegou de carro, entrou
no motel e foi para o tal quarto. Eu entrei com meu carro em seguida e fui para
um quarto que era ao lado do dele. Demorado algum tempo eu invadi o seu recinto.
Ele, por um momento, assustou-se quando me viu. Fez ar de quem não sabia de
nada, mas eu esclareci toda a história. Disse ao Henrique que eu não me
importaria que ele fizesse sexo com outras pessoas, mas ele, naquele momento,
deveria se entregar a mim. O seu último gozo seria meu. Hesitou, mas nos amamos
rapidamente. Peguei o vinho que estava no gelo, entreguei um copo para ele. Ele
bebeu... Começou a sentir uma grande falta de ar que foi aumentando aos poucos.”
“Peguei os lençóis da
cama, fiz uma Tereza. Ele estava desfalecendo, adiantei o meu serviço: amarrei
a corda de lençóis no seu pescoço, segurei o seu corpo, joguei a corda por
entre uma viga grossa de madeira que sustentava o teto do local. Puxei, pelo
outro lado. A cada puxada que eu dava sentia seu corpo sendo esticado e
detonado pela falta de respiração que aumentava por causa do veneno e da corda
de lençóis que o sufocava ainda mais. Enlacei-a na cabeceira da cama e fui ver,
chorando muito e com uma mistura de ódio e satisfação que dominava o meu corpo,
a cena que eu compus. Olhei-o, ele devolvia o olhar com ar de quem não sabia o
porquê de tamanha vingança. resolvi explicar:”
“Você jamais deveria ter traído o meu amor. Eu
aceitei que você transasse com outras pessoas, mas seu amor deveria ser só meu!
E se ele não pode ser meu, não poderá ser também de ninguém.”
Uma última lágrima saiu dos olhos de Henrique.
Ele, logo após, desfaleceu. Limpei toda a cena. Levei álcool e retirei minhas
digitais. Vir se tinha algo que me incriminasse. E o melhor: peguei alguns fios
de cabelos teus, de uma escova que estava lá em casa, e joguei sobre o corpo
dele. Um dos copos que estava com o veneno foi o que você tinha utilizado no
nosso jantar no dia anterior. Fiz tudo de forma que a cena do crime te culpasse.
O meu grande amor se foi e você não serve mais para mim. Sei que não abrirá a
boca sobre o ocorrido para ninguém. Com isso garantirá a sua boa estadia no
presídio e vida longa a sua família. Lembre-se: agora você não tem mais
dinheiro, é uma miserável!
Mariana chorou com desespero
e raiva. Eu sair da sala. Bati a porta com força. Deixei ela se afogar na
tempestade dos que desafiam os mansos.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
SEGUE MARIA
Segue em frente Maria
A vida é vazia, mas o mundo é nosso
O horizonte é nosso
Os sonhos são nossos.
O chão é quente
Os espinhos potentes
Como o veneno da cobra.
Diga não Maria
Diga sim Maria
Diga não Maria
A quem mandar você fazer
Faça o que quiser !
Você é Deus
O caminho é seu
A cabeça é sua
A pele é sua
Os olhos são teus.
Não olhe para trás
Não Agora.
Só olhe para trás
Quando for a hora.
Não queira virar sal.
Não queira o mal
Consuma o tempo.
Tempo tormento.
A vida Maria não é graça
Não é de graça
É desgraça.
Cada sorriso dado
É dádiva Maria.
Sorria. Afaste a morte.
Sorria Maria, muito
A comédia é a tragédia bem contada.
Não olhe para o relógio Maria.
Viva a vida.
Viva à vida!
O relógio passa
O tempo passa
A roupa passa
A vida passa.
A Maria não fica.
A Maria passa
Outra Maria tem que surgir.
O chão é quente
Os espinhos potentes
Como o veneno da cobra.
Diga não Maria
Diga sim Maria
Diga não Maria
A quem mandar você fazer
Faça o que quiser !
Você é Deus
O caminho é seu
A cabeça é sua
A pele é sua
Os olhos são teus.
Não olhe para trás
Não Agora.
Só olhe para trás
Quando for a hora.
Não queira virar sal.
Não queira o mal
Consuma o tempo.
Tempo tormento.
A vida Maria não é graça
Não é de graça
É desgraça.
Cada sorriso dado
É dádiva Maria.
Sorria. Afaste a morte.
Sorria Maria, muito
A comédia é a tragédia bem contada.
Não olhe para o relógio Maria.
Viva a vida.
Viva à vida!
O relógio passa
O tempo passa
A roupa passa
A vida passa.
A Maria não fica.
A Maria passa
Outra Maria tem que surgir.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
O FISCAL DE CU
Gorjão Campinei era
soldado aposentado da marinha. Vivia sem ter o que fazer, após ter saído das
forças armadas. Sua vida monótona o colocava em um lugar de tristeza profunda.
Ele precisava de algo que desse significado a sua existência. No banco da Praça
Piedade (coisa que custava fazer diariamente, sempre que a agonia da solidão
lhe batia em casa), de pernas cruzadas e olhos atentos ele avistou um casal de
homens andando de mãos dadas, até que um deixa o companheiro na porta de uma
clínica médica e dá-lhe um selinho de despedida. Este foi o grande “despertar”.
Descobriu, a parti daquela visão, o sentido da sua aposentadovida!
Noutro dia cedinho
Gorjão foi até a prefeitura municipal. Queria abrir um negócio próprio. Seria
um fiscal ambulante. Como bom cumpridor da lei não fazia nada que estivesse
fora das normas, do papel, da assinatura. Chegou para a atendente, entregando-lhe
uma pasta cheia de documentação e largou o verbo: “Tá aqui minha senhora! Anote
as coisas aí e me dê uma autorização. Eu quero ser “FISCAL DE CU!”.
Para minha surpresa,
para tua surpresa, para nossa surpresa a atendente não se surpreendeu. Olhou
para cara do velho admirada, após ler o que estava escrito como a função de um
FISCAL DE CU:
- Observar, averiguar, multar e prender (se for o caso!) aqueles que utilizam ou têm maior probabilidade de utilizar o “orifício corrugado possuidor de maus odores” de forma errônea, anticristã e antinatural.
A atendente beijou o crucifixo
que estava em seu pescoço e exaltou: “Deus seja louvado! Precisamos de mais
pessoas como o senhor. Este mundo esta se perdendo e só senhores com o senhor
poderá fazer com que tudo volte a ser como o Senhor lá de cima deixou aqui em
baixo.”. [A imagem do crucifixo tapou os ouvidos.] Sem pressa, sem demora e,
como se ali não fosse uma repartição pública, toda a documentação foi
carimbada, assinada e homologada. O FISCAL DE CU estava pronto para atacar – e encoberto
pela lei!
Não demorou para que o
bendito Gorjão colocasse a sua nova atividade profissional em prática. E sabia
que poderia ganhar muito dinheiro fiscalizando o cu alheio. Deu uma olhada
rápida na internet e achou um panfleto turístico que indicava todos os pontos
ditos GLS da capital baiana. Sendo ele, pois, o salvador do cu dos patriotas
mataria, então, três coelhos com uma fiscalizada só: traria o cu de volta ao só
seu lugar de uso natural, salvaria os pecadores e ficaria rico. Montou sua
estratégia e noutro dia, numa sexta-feira ensolarada saiu de casa: com sua prancheta,
uma farda azul com uma pintura mal feita de um ânus sendo penetrado por um
pênis, cortado com um X de PROIBIDO e uma caneta bic, do camelô, que custa cinquenta
centavos.
Pela manhã foi à praia
da Barra e atrás do farol seu coração disparou: vários homos se beijando, se atracando com imensas probabilidades dos cus
serem usados de maneiras erradas. Multou todos os casais gays que se
acariciavam, roçavam e apalpavam-se. Para cada ação a tabela de multa continha
um valor, seguindo a lógica da maior probabilidade de risco do mau uso do cu:
BEIJO: 20,00
reais.
AMASSOS: 40,00
reais.
PEGADAS NA
MANDIOCA: 60,00 reais
CHUPADAS NA
MANDIOCA: 100,00 reais.
SENTADA NA MANDIOCA E AFINS: 200,00 reais.
Poderiam pagar depois,
mas na hora tinham 10% de desconto e ele aceitava cartão. Só pela manhã, no
Porto da Barra, foram 51 multas. E seguiram-se os pontos:
A tarde ele passou em várias
saunas da cidade, outros lugares estratégicos como o “Sofá da Hebe”, Jardim de
Alah e alguns bares como o Âncora do Marujo sendo só aí 87 multados. De noite
ele foi a três boates: a TROPICAL, a SAN SEBASTIAN e a AMSTERDAN. Resultando na
sua busca noturna em 120 canetadas.
Vixe! A madrugada no
facebook foi alvoraçada: bichas, travestis, gays, goys, andrógenos,
transformistas comentavam e compartilhavam informações a respeito do FISCAL DE
CU. Alguém tinha que tomar uma providência. Associações como a GGB (Grupo Gay
da Bahia) e a ATRAS (Associação das Travestis de Salvador) publicavam
manifestos contra este ato incoerente que ia de contra a liberdade de
expressão. Os dias passavam e a situação ia piorando. Repórteres entrevistavam
o deputado esquerdista e defensor das minorias Neam Xibilis e o fiscal de cu
Gorjão. Eram ataques de todos os lados. As melhores mídias televisivas como Se
liga Bocão, Na Mira e nacionalmente o Ratinho organizavam debates que
confrontavam pessoas que defendiam ou atacavam a fiscalização do cu alheio.
Gorjão ficava cada vez
mais famoso. Ganhava muitos adeptos que defendiam a reconstrução moral, ética e
religiosa da sociedade brasileira. Passava-se o tempo e sua fiscalização ficava
mais intensa. Até os héteros evitavam apertar as mãos dos amigos, pois tinham
medo de, confundidos com um casal gay, serem multados pelo mau
uso do olho que tudo ver e nada fala.
Gorjão recebeu uma
milha processos. O ex-aposentado estava se embolado mais que corda de
caranguejo. Ele foi intimado, julgado, perdia algumas, ganhava outras até que a
coisa foi parar no Supremo Tribunal Federal...
É chegado o dia da audiência.
Gorjão acorda atrasadíssimo – o trabalho estava intenso lhe deixando abundantemente
cansado. Arruma-se com agilidade. No meio do caminho sente uma fome
desconfortável. Resolve comer um acarajé, mesmo estando em um sol escaldante às
10h da manhã. Chega ao supremo tribunal e a audiência só o esperava para
começar. Passado os trâmites legais de iniciação do julgamento o acusador, o
deputado Neam Xibilis, esfola Gorjão:
“Este senhor é um
deficitário mental. Não é possível que alguém em plena intelectualidade e
nobreza de espírito perca a ludicidade do seu tempo para criar uma lei profana.
Fiscalização de cu! Como pode uma coisa?! A sociedade brasileira nunca viu isso
antes na história deste país. Nem nos tempos da ditadura militar. Agora minhas
irmãs bichas não podem mais beijar, pegar, roçar ou apalpar um aipim. Por causa
de uma ação enfadonha deste velhaco. Nos gays não aceitamos isso de forma
alguma. O sexo é importante para os seres humanos e nos homossexuais tão
humanos que somos precisamos também dá de ré no quibe!..”
Gorjão começa a se
sentir mal. Sua feição muda tal quais as cores do arco-íris. Sua barriga começa
a vibrar. Algo não vai bem. Lembrou-se do maldito acarajé. O bolinho de feijão,
somado ao calor do verão baiano, começava a fazer efeito na sua barriga. Abriu
o cinto da calça e desabotoou também o botão que lhe apertava a cintura; aquela
compressão não colaborava mesmo. As palavras do deputado Neam Xibilis não
estavam nem fazendo sentido para os ouvidos do fiscal:
“Eu peço então a esta
suprema corte que acabe com essa exagerada vergonha. Pois um país como este não
pode tolerar o embargo dos chicotes, butuins, furicos, roscas, tobas, regos,
forevis, fiofós e anéis alheios!” Terminou o deputado.
Boa parte dos presentes
aplaudiu calorosamente a fala do Neam. Outros defensores da ideia do Gorjão
soltaram uma vaia estridente.
O ministro Etevaldo Retadovisk,
responsável pela condução da audiência, continuou o julgamento, pegou o martelo
da lei e deu três batidas bem seguras na mesa:
“Silêncio seus cambadas
de mal educados! Não quero manifestação alguma neste tribunal. Recolham-se as
suas respectivas insignificâncias. Eu não estou nem gostando de estar aqui, em
pleno verão, com este sol gostoso, perdendo a oportunidade de estar na praia,
em Itapuã. E vocês querem fazer deste tribunal um brega?! Quem piscar o olho
irá dormi no xilindró.”
A plateia virou estátua
de Sal. O ministro excelentíssimo Etevaldo Retadovisk avançou com a sessão:
“Que venha o senhor
Gorjão defender-se!”
Gorjão já estava nas
últimas. Sua boca espumou, os poros choravam suor e a barriga vivenciava uma
terrível tempestade. O fiscal de cu levantou-se, andava bem devagar, segurando
as calças semiabertas. Todos os presentes fixavam os olhares nele estranhado o
seu comportamento. Aquele ser imponente, imperativo, intempestivo agora estava
calmíssimo, apesar da cara de javali. Com seus passos lentos chegou ao centro do
tribunal. Tinha dúvidas se conseguiria falar. O supremo juiz ordenou:
“Pois então senhor
Gorgão desembuche!”
Gorjão mal conseguia
respirar, dirás falar. Suas tripas não lhe perdoaram, se agitavam descontroladas,
a reclamar do acarajé, a querer expulsar aquela gordura saturada das suas entranhas.
Gorjão se contorcia mais e mais. Os presentes começaram a perceber que ele não
estava se sentindo bem. A barriga de Gorjão vibrou, os gatos aranhavam as
tripas, a tsunami bateu e Gorjão não aguentou... Em um descuido sua calça caiu...
Gorjão DEFECOU! CAGOU! SE BORROU! Uma merda fedorenta e aguada. Todos do tribunal
taparam o nariz. E riram da desgraça de Gorjão. As travestis da primeira fila
não perdoaram nos comentários e aos berros soltavam:
- A bicha passou
cheque!
- Sai pra lá
cagona!
- Que horror!
Este cu tá rasgado!
- Salvai a sopa
de bosta!
- Ela esqueceu a
fralda geriátrica!
A vossa
excelência, o ministro Etevaldo Retadovisk não acreditava no que seus olhos
acabaram de assistir. Pegou o seu martelo – que eu pensei que jogaria na cara
de Gorjão – e não demorou a dar a sentença (todos se levantaram):
“Depois desta
cena ordinária, deprimente e absurda, eu não tenho dúvidas do resultado desta
audiência. Está suspenso todo e qualquer tipo de fiscalização do cu alheio.
QUEM NÃO TEM CONTROLE SOBRE SEU PRÓPRIO CU, NÃO PODE CONTROLAR O CU DOS OUTROS!”
Aplausos,
gritos, purpurinas e confetes.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
LAMENTAÇÕES À SANTA BÁRBARA
Santa Bárbara iê, iê
Santa Bárbara Iá, iá
Santa Bárbara, santa?
Santa Barbará.
A Santa espada iê, iê
A decepada iá, iá
Santa Bárbara Iá, iá
Santa Bárbara, santa?
Santa Barbará.
A Santa espada iê, iê
A decepada iá, iá
Por que foste atingida?
Santa Barbará.
Sua revolta iê, iê
Aonde foi parar?
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
Por que esperar-te morrer
Para se manifestar?
O raio te salvaria
Santa barbará.
Santa Barbará.
Sua revolta iê, iê
Aonde foi parar?
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
Por que esperar-te morrer
Para se manifestar?
O raio te salvaria
Santa barbará.
Tão protetora iê, iê
Santa tão santa iá, iá
Não te salvaste ô Santa
A quem então salvará?
Essa candura iê, iê
Não há no vermelho Iá, iá
Espada e comando dos ventos
Iansã te ajudará.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Manguezais e Palafitas
Água salobra,
manguezais, caranguejos, crustáceos. Casa sustentada pelos membros robustos de
uma árvore morta. Lama, fungos, decomposição. Senhora da morte, que dá e tira;
mãe do curador. Ali mora a mais velha das velhas.
Neste lugar, onde as
águas do Una em plena rebeldia invadia a invasão, eu via em baixo da minha casa
a lama se assentar dando espaço para as águas preencher o seu lugar que
é de direito. Não tive medo de ver tudo enchendo. Alegrava-me por poder morar
em cima do mangue que vez em quando virava rio. Era meu coração que acompanhava
aquele ciclo. Ida, volta, água doce, lama, cheio, vazio.
A força do diálogo
entre mangue e rio obrigava que as estacas das palafitas fossem observadas constantemente.
Madeira apodrece. O mangue já é podre de tanta vida. Os invasores são
invadidos. As palafitas são refúgios de vidas. E os barracos flutuantes sempre
desmoronavam.
O quintal era uma
floresta de mangue-branco. Os animais de estimação: siris, guaiamuns, camarões,
peixes, ostras, sururus... Ali é o berçário de todas as águas. Donde saiu a matéria
prima que constitui a casca mais dura: fez-se o homem! Cinzenta mistura, refinada e homogênea, que nenhum ser vivente pode separar. Morte, vida, cíclico. O mundo
precisa da lama.
Dessa lama o bicho
racional surgiu. Dessa lama! Não deste barro. O barro endurece. Não é propício a
mesma multiplicação e diversidades das vidas. A lama do mangue é molinha, mais
que areia é o entre da vida e morte. É a necessidade de se renovar sempre. As
nossas veias: raízes protuberantes da
flora deste lugar: sangue, seiva, líquido, coração.
Visitei a minha antiga
palafita. Suas estacas de sustentação não foram revistas. A maré encheu, a maré
vazou, o mangue a engoliu.
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