sexta-feira, 3 de julho de 2015

Agonia:



Ponto final que nunca chega. Círculo que não se fecha. Avião que não voa no ar. O homem inteiro em plena tristeza podendo dormir, mas sem um pingo de sonhar. Perna boa que não caminha, braço forte que não labuta, olho que ver e não enxerga, ouvido que ouve, mas não esculta. Soldado valente tão frio na batalha. A lenha bem quente esfriando a fornalha. Anjo e suas asas caindo pro nada. Menino e menino, menina e menina, menino e menina se amando, podendo, mas a dúvida atrapalha. O medo paralisante. O perigo constante. A vida eterna deselegante. Rosa cheirosa isola no canteiro. Laço bonito escondendo o passarinheiro. Comida no prato, metade no lixo, enquanto na rua a fome é abrigo. Cobertor bem quentinho guardado num canto. O abraço apertado buscando carinho. São as lágrimas guardas querendo desaguar. Rio glorioso impedido de se encontrar com o mar. Mãe protetora com o filho nos braços, gritando aos prantos - o pó deu-lhe o último abraço. Alegria mais linda nos olhos da criança sendo diminuída com trabalho e desesperança. Cachorro ansioso para que o dono chegue do trabalho. O dono que chega e nega ao cão o afago. Deus querendo saber o que será da Terra. Homem e seu ego atropelando quem não tolera. Vida e Morte cantando pro mundo que tudo começa e se encerra. De onde vinhemos? Para aonde vamos? Vamos?

terça-feira, 23 de junho de 2015

Eu-gaiola

Na gaiola estavam presos meus medos:
Abrir a portinha
Eles voaram para perto.
Longe estão minhas verdades.
Não destruir minha gaiola
Nem joguei fora meus medos.
Eles têm essa morada
Toda vez que as verdades rígidas quiserem se aproximar.
Os medos voltam à gaiola
Cantam alto
Espantam as verdades rígidas
E saem - a portinha sempre está aberta.
Gaiola boa não prende, nem é abrigo
O perigo é fechar a portinha dela
E eu preso fugir de mim
.

terça-feira, 16 de junho de 2015

APOCALIPSE NOT



Não quero voltar. Não quero voltar agora. Já não sei tudo valeu a pena. Já não sei se minha passagem foi pequena e insuficiente. Meu sofrimento por vós se corrompeu. Agora se torna justificativa para sacrificar o outro; invalidado estar o meu sacrifício.

Aonde errei em meus passos? Que cura eu não fiz que não pudesse ser tomada como exemplo para que vós também utilizásseis do meu nome para curar? Que amor eu não preguei para que meu amor tu não pudesse multiplicar? Que dor eu não sofri para que teus olhos de tristeza não pudessem transbordar?

Jazo em plena psicanálise. Entreguei meus pensamentos a Sigmund Freud. Preciso mergulhar na minha subjetividade para descobrir quais dos tropeços dados na via-crúcis desviaram o caminho que tracei para a humanidade. Preciso conversar com o Pai. Há uma pane na configuração da escuta dos filhos de Eva. Se de amor contaminei-os por excesso, algum dos vendedores não recebeu a devida chicotada.

Eles não corrompem a filosofia de Gandhi. Não destroem os mantras de Buda. Não se distorce as lições de Irmã Dulce. Se o fazem não o fazem com a mesma proporção de quem alteram os meus ensinamentos. Há uma relação entre guerra e paz. Entretanto jamais fui um homem de fomentar guerra. Tão pouco desprestigiei a paz. Foi o amor que norteou a minha palavra, o perdão pedra fundamental para transcender a vida, a ternura reforça que somos a imagem e semelhança Deus.

Lembro-me do peso multiplicado do meu corpo. Lembro-me da textura da madeira. Lembro-me da lança afiada e das chicotadas. O chão com meu sangue foi lavado. O mar com minhas lágrimas foi salgado. Nenhum animal será sacrificado. Nenhum homem será atormentado. Todo ser humano merece ser amado. Antes de vomitar meu nome, lembre-se das minhas dores, das minhas ações, das minhas recomendações. Seja verdadeiro consigo, comigo e com a multidão.

Preciso então que você mate teu diabo. Apague as chamas e feche as portas do teu inferno. Já não quero ouvir lamentações sobre tudo aquilo que faz sofrer e que eu nunca fiz existir. Tranquei a besta em um porão do esquecimento. Não vou voltar até vocês aprenderem a lição. Todos imundos e encardidos, em pleno exercício da misericórdia, precisam urgentemente, não mais na fé, mas na prática serem irmãos. Do céu não cairá fogo. A terra não inundará. No coração dos poetas, loucos e dançarinos um rosa nascerá. Estar cancelado o apocalipse, até terceira opinião. Preciso que a humanidade por si só brilhe- vamos levar luz à escuridão.


 O mundo não vai acabar, renascerá no fim do arco-íris, na primavera mais linda, ali pertinho do Japão.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O BOTE DA COBRA MANSA




Minha vida é quase perfeita. Eis aqui o Dr. Sergio: um dos mais respeitados advogados de Salvador. Apesar de atrair a atenção das mulheres não dou muita bola para as oferecidas. Sou casado e bem casado com a bela é Mariana.
No carnaval de 2009 estava eu e meu grande amigo, o Henrique, no Bloco Camaleão, uma maravilha! Em meio ao pula-pula eletrizante da festa me bati com a negra de cor de jabuticaba. Nossos olhares se cruzaram. Coloquei meu colar de Gandhi em seu pescoço e a agarrei dando-lhe um gostoso beijo. Apaixonei-me por aquela mulher em pleno carnaval. Meu amigo Henrique pegou no meu pé, pois carnaval é tido como uma festa para curti e não para se apaixonar. Só que para o amor não há ocasião certa. Ficamos juntos durante os outros dois dias que faltavam para acabar a festa. Ligávamos um para o outro a todo o momento. Tive medo de a gata morar em outra cidade ou em outro ou Estado. Mas não. Ela era soteropolitana! Poderíamos, então, desenvolver o relacionamento.
 O carnaval passou. Flertarmos durante um bom tempo. A pedir em namoro. Dois meses depois já morávamos praticamente juntos. Após cinco meses de convivência casamos.
O Henrique, aquele que me chacoteou por eu ter passado todo o carnaval com Mariana, acabou sendo também o padrinho do meu casamento. Um cara muito legal, companheiro, fiel, nunca tivemos uma briga séria. Ele sempre esteve presente nos grandes, pequenos, alegres e turbulentos momentos da minha vida. Conheci Henrique ainda garoto, com treze anos. Ele era mais novo. Eu morava em Brotas e aquele novo amigo chegara de Santo Antônio de Jesus, pois seu pai conseguira um novo emprego na capital baiana. Morávamos no mesmo prédio, seu pai ficou amigo do meu, e sempre jogavam xadrez juntos. Ele sempre acompanhava o seu velho, mas da mesma forma que eu, não tinha ainda paciência para o complexo jogo de adultos. Jogávamos vídeo game a noite toda. Nunca fui de muitos amigos. A amizade de Henrique era suficiente. Crescemos juntos e passamos a estudar na mesma escola. Brigávamos um pelo outro – e olhe que não foram poucas as brigas. Até que depois do ensino médio, demos uma separada: eu fui cursar direito e o Henrique foi fazer engenharia civil. Nós nos víamos em alguns finais de semana. Depois da tempestade da graduação podemos nos encontrar algumas vezes.
Henrique é elegante, boa pinta e sempre fora um garanhão. Há um tempo arranjou uma namoradinha que frequentava a minha casa. A garota até ficou amiga de Mariana, mas o relacionamento dela com o Henrique acabou; traição, por parte dele, é claro! Ele, depois de um preconceituoso distanciamento, se aproximando de Mariana.
Ontem cheguei em casa e como sempre dei um beijo na minha companheira. Ela retribuiu, mas os seus lábios tinham um sabor diferente. Sabor de mistério. Perguntei se estava acontecendo algo errado e a mesma apenas disse que sentia um pouco de dor de cabeça. Mal estar repentino de mulher é sinal que alguma coisa errada paira pelo ar. Elas sempre escondem a verdade na dor. Acredito que a dor que muitas sentem é resultado do acúmulo de mentiras que ainda não foram externadas. Reforcei a pergunta: “está acontecendo alguma coisa?” Mariana disse que não. Mudou o seu tom frio para outro mais receptivo. Disse-me sorrindo: “vá tomar bando amor, fiz um jantar maravilhoso”. Dei outro beijo nela e fui para o banho, lá comecei a pensar na sua recepção nada calorosa. Marina sempre me acolhia muito bem. Nunca sentir tal frieza. Por outro lado, se ela estivesse com algo lhe afligindo certamente diria: minha esposa nunca foi de segredinhos.
Jantamos. A comida de fato estava deliciosa. Conversamos sobre diversos assuntos e o astral da minha amada já mudara. No entanto, seu sorriso, em alguns momentos, saia um tanto forçado. Acabamos de janta e fomos para o quarto. Deitamos, ligamos a TV e ela pois a cabeça sobre o meu peito. Falamos sobre algumas coisas do nosso dia-a-dia. depois, relaxados, fiz novamente a pergunta: “amor eu te conheço, percebi pelo seu jeito que estar acontecendo alguma coisa errada ou que está lhe incomodando, por favor, fale o que é!” Marina respirou fundo e disse: “ desculpe amor, eu não consigo esconder nada de você mesmo. Está bem, eu vou falar...”
Eu a olhei e reforcei que ela poderia falar sem medo. Mariana continuou: “sabe... eu estou ha algum tempo em casa, sem trabalhar... sou formada em enfermagem, deixei meu emprego para organizar a nossa vida de casados, mas...”. Olhei atentamente para suas pupilas e a confortei: “isso não é problema algum. Você não precisa trabalhar. Estar aqui cuidando da casa e se preparando para em breve ser a mãe de nossos filhos e...” Marina me interrompeu: “eu sei, mas isso me frustra um pouco. Vejo minhas amigas todas trabalhando...”.
Ela estava incomodada em ficar em casa na inércia. Conseguiu um emprego em uma clínica médica. Eu hesitei bastante com a ideia dela voltar a trabalhar. Já estava acostumado com a sua presença diária e com os cuidados que tinha comigo e com a casa. No entanto eu não podia agir como um machista, idiota, arcaico. Disse a Mari que poderia ir, mas que sentiria por não tê-la constantemente. Resolvemos que contrataríamos uma diarista para fazer as atividades domésticas. Tudo resolvidos vir o seu semblante de felicidade. Foi o suficiente para nos rolarmos em uma gostosa noite de amor...
Seguimos os dias plenamente felizes. Acabei me acostumando com a ideia de Mariana Trabalhar. Só que tal felicidade não duraria muito tempo. Mariana começou a ter horários diferentes no seu trabalho. Não trabalhava mais pela manha, sempre era à tarde e às vezes à noite. Desconfiei da minha esposa. Ela parecia normal. Eu sempre perguntava, disfarçadamente, sobre os horários no que ela respondia: “coisas do trabalho amor”, “tive que cobrir o horário de uma colega”, “o médico resolveu atender até tarde”. A ideia de que Mariana poderia estar fazendo algo errado começou a se fortalecer na minha mente. Seus horários ficaram cada vez mais tardes. Resolvi que deveria contratar um detetive para segui-la. Procurei um no jornal. Achei. Liguei para o mesmo. Ele disse que o serviço duraria um tempo indeterminado, pois nem sempre na primeira busca encontraria algum fato incriminador. Teria que ficar atrás da minha esposa durante, pelo menos, uma semana. Meu coração acelerou quando ele disse, após eu ter contado o que estava acontecendo, que pela sua experiência, de fato, algo negativo poderia estar acontecendo. Eu não admitiria uma traição. Eu, um homem procurado por muitas mulheres, nunca a trair. Não sei o que eu faria se Mariana estivesse... Fui até o escritório do detetive e pedi que ele iniciasse as investigações.
Passaram-se quatro dias. O detetive ligou. Pediu que eu me dirigisse ao seu escritório, pois tinha novidades. Fui ao seu encontro. Ele me recebeu com um olhar de piedade que deu até medo. Falou, com muita precaução na voz, e entregando um envelope, que minhas suspeitas estavam, enfim, confirmadas. Fiquei trêmulo. Sentei no sofá do escritório. Ele disse que as fotos estavam dentro do envelope. Encontrara Mariana com um homem entrando num motel luxuoso. Rasguei o envelope com grande raiva. Não acreditei no que meus olhos presenciaram. A punhalada era dupla. Mariana estava abraçada com ele. Ele que eu jamais pensaria. O meu melhor amigo: o Henrique! Chorei desesperadamente. O detetive pediu calma e deu-me um copo com água. Depois de algum tempo de lamentações, respirei. Paguei o detetive pelos seus serviços e pedi ao mesmo o endereço do motel. Aquilo não poderia ficar assim.
Voltei para casa tentando disfarçar a dor da punhalada que acabara de receber. Minha esposa e o meu melhor amigo, meu irmão, me traíram. Não faria nada de imediato; queria ganhar tempo para resolver aquela situação de forma que ambos pagassem pela dor que eu estava sentindo. Disfarcei com muita força: a vida seguiria, com beijos, sexo e juras ainda mais ardentes.
Passaram-se 15 dias da descoberta. Segui algumas vezes a Mariana e guardei o horário dos encontros. Eram duas ou três vezes na semana notando que a sexta-feira era sagrada. Chegara à sexta-feira do seu encontro. Segui todo o percurso de Mariana.
Mariana saiu do trabalho ás 17 horas, sendo que ela tinha me dito que só sairia ás 20h30min. Passou em uma loja, comprou um belo vestido e seguiu em direção ao motel na Barra. Eu a olhava com sorriso entre os lábios. Mariana parou o carro em frente ao estabelecimento. O recepcionista lhe deu uma chave. Certamente, o amante já estava a sua espera. Passaram-se 13 minutos. Esperei mais um pouco.  De repente chegou duas viaturas. Fiquei assustado. O que estava acontecendo? Os policiais entraram no motel.  Depois de algum tempo Mariana era trazida por uma PM que a colocou no camburão. Olhei atentamente para tudo. O camburão, onde Mariana estava, seguiu para delegacia e eu fiz o mesmo.
 Chegado à delegacia, Mariana sai do carro chorando muito. Demorou mais algum tempo e meu telefone tocou: era ela. Disse para eu ir ao seu encontro, pois a mesma estava presa. Dei um tempo, saí do carro e fui até ela. O delegado era um conhecido meu. Disse-me o que estava acontecendo: “Me desculpe pela notícia Dr. Sergio, mas... sua mulher está presa. Ela está sendo acusada de matar o amante enforcado no motel.” Fiquei paralisado. Olhei chocado para delegado e disse: “avise a Mariana que venho vê-la amanhã”. Sai do local com as emoções confusas.
Noutro dia fui ver Mariana. O delegado levou-me ao seu encontro. A mesma já estava em uma sala reservada para a nossa conversa. Ele nos deixou a sós.  Ao me ver a assassina me abraçou pedindo perdão. Eu a afaste e dei-lhe uma bofetada. Mariana caiu sobre a mesinha da sala. Esbravejei: “sente aí!” Ela, ainda assustada por causa do bofetão recebido, sentou e me olhou. Tornei-me, aos seus olhos, um desconhecido. Perguntei: “Por quê? Por que tudo isso? Por que me traiu? Por que tinha que ser justamente com o Henrique?” Com o impulso advindo da raiva, pela bofetada que eu lhe dei, a ordinária soltou com força o que eu tanto pedir para ouvir:
“Quando me encontrei contigo no carnaval, antes já tinha beijado o Henrique. Foi algo rápido. Depois te vir. Te achei um gato e o beijei. Coincidentemente ele era seu amigo. Não gostou da minha aproximação, mas eu não liguei: estávamos em um carnaval, não devia satisfação a ele. Eu gostei de você. Ficamos juntos durante toda a festa. Permanecendo a paixão, namoramos e casamos. Mas durante o nosso tempo de namoro eu fui atrás dele. Me aproximei e o atraí para minha teia. Eu gosto de você, mas sentia um forte tesão pelo Henrique. Ele hesitou. Um dia fiquei nua em sua frente. E, então, ele se entregou à mim. Me comeu com força e a parti daquele momento formamos uma pacto sexual, sem nenhum envolvimento de emoções complexas. Os encontros, no começo, eram ocasionais. Eu queria mais e ele igualmente. Henrique conseguiu um trabalho para mim na clínica de um amigo. Eu ia para lá, ficava o horário normal e fazia hora extra no motel. Foi maravilhoso durante todo esse tempo.”
Mariana chorou, respirou fundo e continuou:
“Ontem, quando fui ao encontro do Henrique, ao entrar no quarto, já o encontrei morto. Ele estava pendurado em uma corda feita com os lençóis da cama, uma cena terrível! O pescoço estava quebrado e sua cara dizia que tinha sofrido bastante antes de morrer. Eu sei que você não pode acreditar, mas não fui eu que o matei. Sei também que estar com raiva de nós dois. Sim! Fui eu que fiz toda essa história se desenvolver dessa forma. Eu sou a culpada de tudo. Ele sempre falava de você. Falava da sua amizade, da sua companhia; eu me sentia um pouco mal por isso. Não tão mal a ponto de interromper o nosso caso. Quero também descobrir quem o matou. Essa culpa eu não posso carregar comigo. Eu juro não fui eu! Não fui eu que o matei.”
Eu olhei para a cara chorosa de Mariana. Aquela mulher que um dia eu jurei amor eterno no altar. Só que não sentia pena dela, pelo contrário, comecei a soltar um leve sorriso que, aos poucos, foi se abrindo mais, até eu dá uma gostosa gargalhada. Ela olhou para mim com cara de quem não estar entendendo nada. A encarei atentamente. Interrompi o meu riso desenfreado e comecei a revelar a minha verdade:
“Meu anjo é extraordinário, mas meu demônio é melhor ainda. Quando conheci o Henrique, na época em que o seu pai jogava xadrez com o meu, apaixonei-me por ele no momento em que o vir. Eu era um pouco mais velho, mas o suficientemente atrevido para atraí-lo para meus interesses. Virei seu melhor amigo, sempre me insinuava e ele, por sua vez, retribuía, ainda com vergonha das minhas ‘indecências’. Passado algum tempo, quando tínhamos entre 15 e 17 anos, trocamos um beijo. Eu aproveitei a saída do meu pai, o tranquei no meu quarto, joguei-o na minha cama e tivemos, então, a nossa primeira noite de amor. O nosso romance durou até depois do ensino médio. Brigamos por causa de um envolvimento dele com uma garota que era da nossa classe. Veio a faculdade, cada qual foi para seu lado. Estávamos magoados, mas terminado a época de estudos, as mágoas já estavam secas: resolvemos reatar o romance.”
Mariana congelou. Eu me levantei e continuei revelando a minha história:
 “Eu sempre quis ser um cara respeitado socialmente e bem posicionado. Resolvemos, então, que a nossa relação deveria manter-se, por segurança, sempre secreta. Cada um teria que arranjar uma namorada e quem sabe até casar-se. Naquele carnaval nós estávamos juntos, curtindo a festa tranquilamente. Ele ficou com você e eu vi tudo de longe. Ele veio até mim e falou de você, disse para eu me aproximar, pois você parecia ser uma moça interessante para um relacionamento de reconhecimento social. Segui o conselho do Henrique. Me ‘esbarrei’ contigo. Apaixonei-me. Uma falsa paixão: é claro! Paixão que tinha por objetivo arranjar uma mulher apresentável. O plano culminou no nosso casamento. Legal até certo ponto, mas mera estratégia de marketing. Como poderia um grande advogado como eu ficar solteiro?”
Olhei bem nos seus olhos e continuei:
 “Durante todo esse tempo eu e o Henrique estávamos juntos, nos amando, planejando até uma mudança de país depois da minha aposentadoria. Iríamos para um lugar onde as pessoas aceitassem o nosso amor de forma mais tranquila. Só que ele começou a ficar estranho e você também. Passei a desconfiar que algo estivesse errado. Como os meus encontros com o Henrique estavam cada vez mais difíceis, por causa do meu trabalho, tornou-se complicado descobrir o que estava acontecendo com ele, mas com você era muito mais fácil. De alguma forma compreendi que descobrindo o que você estava fazendo eu descobriria o que estava acontecendo também com ele. Contratei um detetive que te seguiu durante alguns dias e que revelou, após algumas buscas, a traição de vocês. Resolvi que isso não ficaria assim. Como poderia uma ordinária que eu pus na minha casa querer roubar o homem que eu conquistei desde a minha infância? Henrique era o amor da minha vida. Não admitiria que nenhuma pessoa se intrometesse na nossa história. O distanciamento que ele tinha comigo agora estava justificado: ele não queria só sexo com você, ele estava te amando.
Mas eu não permitiria: marquei os horários dos seus encontros. Escolhi o dia de ontem. Consegui o contato de um trabalhador do motel que me deu algumas dicas. Disse qual era o quarto que vocês costumavam ficar. Ele chegou de carro, entrou no motel e foi para o tal quarto. Eu entrei com meu carro em seguida e fui para um quarto que era ao lado do dele. Demorado algum tempo eu invadi o seu recinto. Ele, por um momento, assustou-se quando me viu. Fez ar de quem não sabia de nada, mas eu esclareci toda a história. Disse ao Henrique que eu não me importaria que ele fizesse sexo com outras pessoas, mas ele, naquele momento, deveria se entregar a mim. O seu último gozo seria meu. Hesitou, mas nos amamos rapidamente. Peguei o vinho que estava no gelo, entreguei um copo para ele. Ele bebeu... Começou a sentir uma grande falta de ar que foi aumentando aos poucos.”
“Peguei os lençóis da cama, fiz uma Tereza. Ele estava desfalecendo, adiantei o meu serviço: amarrei a corda de lençóis no seu pescoço, segurei o seu corpo, joguei a corda por entre uma viga grossa de madeira que sustentava o teto do local. Puxei, pelo outro lado. A cada puxada que eu dava sentia seu corpo sendo esticado e detonado pela falta de respiração que aumentava por causa do veneno e da corda de lençóis que o sufocava ainda mais. Enlacei-a na cabeceira da cama e fui ver, chorando muito e com uma mistura de ódio e satisfação que dominava o meu corpo, a cena que eu compus. Olhei-o, ele devolvia o olhar com ar de quem não sabia o porquê de tamanha vingança. resolvi explicar:”
 “Você jamais deveria ter traído o meu amor. Eu aceitei que você transasse com outras pessoas, mas seu amor deveria ser só meu! E se ele não pode ser meu, não poderá ser também de ninguém.”
 Uma última lágrima saiu dos olhos de Henrique. Ele, logo após, desfaleceu. Limpei toda a cena. Levei álcool e retirei minhas digitais. Vir se tinha algo que me incriminasse. E o melhor: peguei alguns fios de cabelos teus, de uma escova que estava lá em casa, e joguei sobre o corpo dele. Um dos copos que estava com o veneno foi o que você tinha utilizado no nosso jantar no dia anterior. Fiz tudo de forma que a cena do crime te culpasse. O meu grande amor se foi e você não serve mais para mim. Sei que não abrirá a boca sobre o ocorrido para ninguém. Com isso garantirá a sua boa estadia no presídio e vida longa a sua família. Lembre-se: agora você não tem mais dinheiro, é uma miserável!
Mariana chorou com desespero e raiva. Eu sair da sala. Bati a porta com força. Deixei ela se afogar na tempestade dos que desafiam os mansos. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

SEGUE MARIA


Segue em frente Maria
A vida é vazia, mas o mundo é nosso
O horizonte é nosso
Os sonhos são nossos.
O chão é quente
Os espinhos potentes
Como o veneno da cobra.
Diga não Maria
Diga sim Maria
Diga não Maria
A quem mandar você fazer
Faça o que quiser !
Você é Deus
O caminho é seu
A cabeça é sua
A pele é sua
Os olhos são teus.
Não olhe para trás
Não Agora.
Só olhe para trás
Quando for a hora.
Não queira virar sal.
Não queira o mal
Consuma o tempo.
Tempo tormento.
A vida Maria não é graça
Não é de graça
É desgraça.
Cada sorriso dado
É dádiva Maria.
Sorria. Afaste a morte.
Sorria Maria, muito
A comédia é a tragédia bem contada.
Não olhe para o relógio Maria.
Viva a vida.
Viva à vida!
O relógio passa
O tempo passa
A roupa passa
A vida passa.
A Maria não fica.
A Maria passa
Outra Maria tem que surgir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O FISCAL DE CU



Gorjão Campinei era soldado aposentado da marinha. Vivia sem ter o que fazer, após ter saído das forças armadas. Sua vida monótona o colocava em um lugar de tristeza profunda. Ele precisava de algo que desse significado a sua existência. No banco da Praça Piedade (coisa que custava fazer diariamente, sempre que a agonia da solidão lhe batia em casa), de pernas cruzadas e olhos atentos ele avistou um casal de homens andando de mãos dadas, até que um deixa o companheiro na porta de uma clínica médica e dá-lhe um selinho de despedida. Este foi o grande “despertar”. Descobriu, a parti daquela visão, o sentido da sua aposentadovida!

Noutro dia cedinho Gorjão foi até a prefeitura municipal. Queria abrir um negócio próprio. Seria um fiscal ambulante. Como bom cumpridor da lei não fazia nada que estivesse fora das normas, do papel, da assinatura. Chegou para a atendente, entregando-lhe uma pasta cheia de documentação e largou o verbo: “Tá aqui minha senhora! Anote as coisas aí e me dê uma autorização. Eu quero ser “FISCAL DE CU!”.

Para minha surpresa, para tua surpresa, para nossa surpresa a atendente não se surpreendeu. Olhou para cara do velho admirada, após ler o que estava escrito como a função de um FISCAL DE CU:

  •     Observar, averiguar, multar e prender (se for o caso!) aqueles que utilizam ou têm maior probabilidade de utilizar o “orifício corrugado possuidor de maus odores” de forma errônea, anticristã e antinatural.


A atendente beijou o crucifixo que estava em seu pescoço e exaltou: “Deus seja louvado! Precisamos de mais pessoas como o senhor. Este mundo esta se perdendo e só senhores com o senhor poderá fazer com que tudo volte a ser como o Senhor lá de cima deixou aqui em baixo.”. [A imagem do crucifixo tapou os ouvidos.] Sem pressa, sem demora e, como se ali não fosse uma repartição pública, toda a documentação foi carimbada, assinada e homologada. O FISCAL DE CU estava pronto para atacar – e encoberto pela lei!

Não demorou para que o bendito Gorjão colocasse a sua nova atividade profissional em prática. E sabia que poderia ganhar muito dinheiro fiscalizando o cu alheio. Deu uma olhada rápida na internet e achou um panfleto turístico que indicava todos os pontos ditos GLS da capital baiana. Sendo ele, pois, o salvador do cu dos patriotas mataria, então, três coelhos com uma fiscalizada só: traria o cu de volta ao só seu lugar de uso natural, salvaria os pecadores e ficaria rico. Montou sua estratégia e noutro dia, numa sexta-feira ensolarada saiu de casa: com sua prancheta, uma farda azul com uma pintura mal feita de um ânus sendo penetrado por um pênis, cortado com um X de PROIBIDO e uma caneta bic, do camelô, que custa cinquenta centavos.

Pela manhã foi à praia da Barra e atrás do farol seu coração disparou: vários homos se beijando, se atracando com imensas probabilidades dos cus serem usados de maneiras erradas. Multou todos os casais gays que se acariciavam, roçavam e apalpavam-se. Para cada ação a tabela de multa continha um valor, seguindo a lógica da maior probabilidade de risco do mau uso do cu:

BEIJO: 20,00 reais.
AMASSOS: 40,00 reais.
PEGADAS NA MANDIOCA: 60,00 reais
CHUPADAS NA MANDIOCA: 100,00 reais.
SENTADA NA MANDIOCA E AFINS: 200,00 reais.

Poderiam pagar depois, mas na hora tinham 10% de desconto e ele aceitava cartão. Só pela manhã, no Porto da Barra, foram 51 multas. E seguiram-se os pontos:

A tarde ele passou em várias saunas da cidade, outros lugares estratégicos como o “Sofá da Hebe”, Jardim de Alah e alguns bares como o Âncora do Marujo sendo só aí 87 multados. De noite ele foi a três boates: a TROPICAL, a SAN SEBASTIAN e a AMSTERDAN. Resultando na sua busca noturna em 120 canetadas.

Vixe! A madrugada no facebook foi alvoraçada: bichas, travestis, gays, goys, andrógenos, transformistas comentavam e compartilhavam informações a respeito do FISCAL DE CU. Alguém tinha que tomar uma providência. Associações como a GGB (Grupo Gay da Bahia) e a ATRAS (Associação das Travestis de Salvador) publicavam manifestos contra este ato incoerente que ia de contra a liberdade de expressão. Os dias passavam e a situação ia piorando. Repórteres entrevistavam o deputado esquerdista e defensor das minorias Neam Xibilis e o fiscal de cu Gorjão. Eram ataques de todos os lados. As melhores mídias televisivas como Se liga Bocão, Na Mira e nacionalmente o Ratinho organizavam debates que confrontavam pessoas que defendiam ou atacavam a fiscalização do cu alheio.    

Gorjão ficava cada vez mais famoso. Ganhava muitos adeptos que defendiam a reconstrução moral, ética e religiosa da sociedade brasileira. Passava-se o tempo e sua fiscalização ficava mais intensa. Até os héteros evitavam apertar as mãos dos amigos, pois tinham medo de, confundidos com um casal gay, serem multados pelo mau uso do olho que tudo ver e nada fala.

Gorjão recebeu uma milha processos. O ex-aposentado estava se embolado mais que corda de caranguejo. Ele foi intimado, julgado, perdia algumas, ganhava outras até que a coisa foi parar no Supremo Tribunal Federal...

É chegado o dia da audiência. Gorjão acorda atrasadíssimo – o trabalho estava intenso lhe deixando abundantemente cansado. Arruma-se com agilidade. No meio do caminho sente uma fome desconfortável. Resolve comer um acarajé, mesmo estando em um sol escaldante às 10h da manhã. Chega ao supremo tribunal e a audiência só o esperava para começar. Passado os trâmites legais de iniciação do julgamento o acusador, o deputado Neam Xibilis, esfola Gorjão:

“Este senhor é um deficitário mental. Não é possível que alguém em plena intelectualidade e nobreza de espírito perca a ludicidade do seu tempo para criar uma lei profana. Fiscalização de cu! Como pode uma coisa?! A sociedade brasileira nunca viu isso antes na história deste país. Nem nos tempos da ditadura militar. Agora minhas irmãs bichas não podem mais beijar, pegar, roçar ou apalpar um aipim. Por causa de uma ação enfadonha deste velhaco. Nos gays não aceitamos isso de forma alguma. O sexo é importante para os seres humanos e nos homossexuais tão humanos que somos precisamos também dá de ré no quibe!..”

Gorjão começa a se sentir mal. Sua feição muda tal quais as cores do arco-íris. Sua barriga começa a vibrar. Algo não vai bem. Lembrou-se do maldito acarajé. O bolinho de feijão, somado ao calor do verão baiano, começava a fazer efeito na sua barriga. Abriu o cinto da calça e desabotoou também o botão que lhe apertava a cintura; aquela compressão não colaborava mesmo. As palavras do deputado Neam Xibilis não estavam nem fazendo sentido para os ouvidos do fiscal:

“Eu peço então a esta suprema corte que acabe com essa exagerada vergonha. Pois um país como este não pode tolerar o embargo dos chicotes, butuins, furicos, roscas, tobas, regos, forevis, fiofós e anéis alheios!” Terminou o deputado.

Boa parte dos presentes aplaudiu calorosamente a fala do Neam. Outros defensores da ideia do Gorjão soltaram uma vaia estridente.

O ministro Etevaldo Retadovisk, responsável pela condução da audiência, continuou o julgamento, pegou o martelo da lei e deu três batidas bem seguras na mesa:

“Silêncio seus cambadas de mal educados! Não quero manifestação alguma neste tribunal. Recolham-se as suas respectivas insignificâncias. Eu não estou nem gostando de estar aqui, em pleno verão, com este sol gostoso, perdendo a oportunidade de estar na praia, em Itapuã. E vocês querem fazer deste tribunal um brega?! Quem piscar o olho irá dormi no xilindró.”

A plateia virou estátua de Sal. O ministro excelentíssimo Etevaldo Retadovisk avançou com a sessão:

“Que venha o senhor Gorjão defender-se!”

Gorjão já estava nas últimas. Sua boca espumou, os poros choravam suor e a barriga vivenciava uma terrível tempestade. O fiscal de cu levantou-se, andava bem devagar, segurando as calças semiabertas. Todos os presentes fixavam os olhares nele estranhado o seu comportamento. Aquele ser imponente, imperativo, intempestivo agora estava calmíssimo, apesar da cara de javali. Com seus passos lentos chegou ao centro do tribunal. Tinha dúvidas se conseguiria falar. O supremo juiz ordenou:

“Pois então senhor Gorgão desembuche!”

Gorjão mal conseguia respirar, dirás falar. Suas tripas não lhe perdoaram, se agitavam descontroladas, a reclamar do acarajé, a querer expulsar aquela gordura saturada das suas entranhas. Gorjão se contorcia mais e mais. Os presentes começaram a perceber que ele não estava se sentindo bem. A barriga de Gorjão vibrou, os gatos aranhavam as tripas, a tsunami bateu e Gorjão não aguentou... Em um descuido sua calça caiu... Gorjão DEFECOU! CAGOU! SE BORROU! Uma merda fedorenta e aguada. Todos do tribunal taparam o nariz. E riram da desgraça de Gorjão. As travestis da primeira fila não perdoaram nos comentários e aos berros soltavam:

- A bicha passou cheque!
- Sai pra lá cagona!
- Que horror! Este cu tá rasgado!
- Salvai a sopa de bosta!
- Ela esqueceu a fralda geriátrica!

A vossa excelência, o ministro Etevaldo Retadovisk não acreditava no que seus olhos acabaram de assistir. Pegou o seu martelo – que eu pensei que jogaria na cara de Gorjão – e não demorou a dar a sentença (todos se levantaram):

“Depois desta cena ordinária, deprimente e absurda, eu não tenho dúvidas do resultado desta audiência. Está suspenso todo e qualquer tipo de fiscalização do cu alheio. QUEM NÃO TEM CONTROLE SOBRE SEU PRÓPRIO CU, NÃO PODE CONTROLAR O CU DOS OUTROS!”

Aplausos, gritos, purpurinas e confetes.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

LAMENTAÇÕES À SANTA BÁRBARA


Santa Bárbara iê, iê
Santa Bárbara Iá, iá
Santa Bárbara, santa?
Santa Barbará.
A Santa espada iê, iê
A decepada iá, iá
Por que foste atingida?
Santa Barbará.
Sua revolta iê, iê
Aonde foi parar?
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
Por que esperar-te morrer
Para se manifestar?
O raio te salvaria
Santa barbará.
Tão protetora iê, iê
Santa tão santa iá, iá
Não te salvaste ô Santa
A quem então salvará?
Essa candura iê, iê
Não há no vermelho Iá, iá
Espada e comando dos ventos
Iansã te ajudará.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Manguezais e Palafitas



Água salobra, manguezais, caranguejos, crustáceos. Casa sustentada pelos membros robustos de uma árvore morta. Lama, fungos, decomposição. Senhora da morte, que dá e tira; mãe do curador. Ali mora a mais velha das velhas.

Neste lugar, onde as águas do Una em plena rebeldia invadia a invasão, eu via em baixo da minha casa a lama se assentar dando espaço para as águas preencher o seu lugar que é de direito. Não tive medo de ver tudo enchendo. Alegrava-me por poder morar em cima do mangue que vez em quando virava rio. Era meu coração que acompanhava aquele ciclo. Ida, volta, água doce, lama, cheio, vazio.

A força do diálogo entre mangue e rio obrigava que as estacas das palafitas fossem observadas constantemente. Madeira apodrece. O mangue já é podre de tanta vida. Os invasores são invadidos. As palafitas são refúgios de vidas. E os barracos flutuantes sempre desmoronavam.

O quintal era uma floresta de mangue-branco. Os animais de estimação: siris, guaiamuns, camarões, peixes, ostras, sururus... Ali é o berçário de todas as águas. Donde saiu a matéria prima que constitui a casca mais dura: fez-se o homem! Cinzenta mistura, refinada e homogênea, que nenhum ser vivente pode separar. Morte, vida, cíclico. O mundo precisa da lama.

Dessa lama o bicho racional surgiu. Dessa lama! Não deste barro. O barro endurece. Não é propício a mesma multiplicação e diversidades das vidas. A lama do mangue é molinha, mais que areia é o entre da vida e morte. É a necessidade de se renovar sempre. As nossas veias:  raízes protuberantes da flora deste lugar: sangue, seiva, líquido, coração.

Visitei a minha antiga palafita. Suas estacas de sustentação não foram revistas. A maré encheu, a maré vazou, o mangue a engoliu.