Gorjão Campinei era
soldado aposentado da marinha. Vivia sem ter o que fazer, após ter saído das
forças armadas. Sua vida monótona o colocava em um lugar de tristeza profunda.
Ele precisava de algo que desse significado a sua existência. No banco da Praça
Piedade (coisa que custava fazer diariamente, sempre que a agonia da solidão
lhe batia em casa), de pernas cruzadas e olhos atentos ele avistou um casal de
homens andando de mãos dadas, até que um deixa o companheiro na porta de uma
clínica médica e dá-lhe um selinho de despedida. Este foi o grande “despertar”.
Descobriu, a parti daquela visão, o sentido da sua aposentadovida!
Noutro dia cedinho
Gorjão foi até a prefeitura municipal. Queria abrir um negócio próprio. Seria
um fiscal ambulante. Como bom cumpridor da lei não fazia nada que estivesse
fora das normas, do papel, da assinatura. Chegou para a atendente, entregando-lhe
uma pasta cheia de documentação e largou o verbo: “Tá aqui minha senhora! Anote
as coisas aí e me dê uma autorização. Eu quero ser “FISCAL DE CU!”.
Para minha surpresa,
para tua surpresa, para nossa surpresa a atendente não se surpreendeu. Olhou
para cara do velho admirada, após ler o que estava escrito como a função de um
FISCAL DE CU:
- Observar, averiguar, multar e prender (se
for o caso!) aqueles que utilizam ou têm maior probabilidade de utilizar o “orifício
corrugado possuidor de maus odores” de forma errônea, anticristã e antinatural.
A atendente beijou o crucifixo
que estava em seu pescoço e exaltou: “Deus seja louvado! Precisamos de mais
pessoas como o senhor. Este mundo esta se perdendo e só senhores com o senhor
poderá fazer com que tudo volte a ser como o Senhor lá de cima deixou aqui em
baixo.”. [A imagem do crucifixo tapou os ouvidos.] Sem pressa, sem demora e,
como se ali não fosse uma repartição pública, toda a documentação foi
carimbada, assinada e homologada. O FISCAL DE CU estava pronto para atacar – e encoberto
pela lei!
Não demorou para que o
bendito Gorjão colocasse a sua nova atividade profissional em prática. E sabia
que poderia ganhar muito dinheiro fiscalizando o cu alheio. Deu uma olhada
rápida na internet e achou um panfleto turístico que indicava todos os pontos
ditos GLS da capital baiana. Sendo ele, pois, o salvador do cu dos patriotas
mataria, então, três coelhos com uma fiscalizada só: traria o cu de volta ao só
seu lugar de uso natural, salvaria os pecadores e ficaria rico. Montou sua
estratégia e noutro dia, numa sexta-feira ensolarada saiu de casa: com sua prancheta,
uma farda azul com uma pintura mal feita de um ânus sendo penetrado por um
pênis, cortado com um X de PROIBIDO e uma caneta bic, do camelô, que custa cinquenta
centavos.
Pela manhã foi à praia
da Barra e atrás do farol seu coração disparou: vários homos se beijando, se atracando com imensas probabilidades dos cus
serem usados de maneiras erradas. Multou todos os casais gays que se
acariciavam, roçavam e apalpavam-se. Para cada ação a tabela de multa continha
um valor, seguindo a lógica da maior probabilidade de risco do mau uso do cu:
BEIJO: 20,00
reais.
AMASSOS: 40,00
reais.
PEGADAS NA
MANDIOCA: 60,00 reais
CHUPADAS NA
MANDIOCA: 100,00 reais.
SENTADA NA MANDIOCA E AFINS: 200,00 reais.
Poderiam pagar depois,
mas na hora tinham 10% de desconto e ele aceitava cartão. Só pela manhã, no
Porto da Barra, foram 51 multas. E seguiram-se os pontos:
A tarde ele passou em várias
saunas da cidade, outros lugares estratégicos como o “Sofá da Hebe”, Jardim de
Alah e alguns bares como o Âncora do Marujo sendo só aí 87 multados. De noite
ele foi a três boates: a TROPICAL, a SAN SEBASTIAN e a AMSTERDAN. Resultando na
sua busca noturna em 120 canetadas.
Vixe! A madrugada no
facebook foi alvoraçada: bichas, travestis, gays, goys, andrógenos,
transformistas comentavam e compartilhavam informações a respeito do FISCAL DE
CU. Alguém tinha que tomar uma providência. Associações como a GGB (Grupo Gay
da Bahia) e a ATRAS (Associação das Travestis de Salvador) publicavam
manifestos contra este ato incoerente que ia de contra a liberdade de
expressão. Os dias passavam e a situação ia piorando. Repórteres entrevistavam
o deputado esquerdista e defensor das minorias Neam Xibilis e o fiscal de cu
Gorjão. Eram ataques de todos os lados. As melhores mídias televisivas como Se
liga Bocão, Na Mira e nacionalmente o Ratinho organizavam debates que
confrontavam pessoas que defendiam ou atacavam a fiscalização do cu alheio.
Gorjão ficava cada vez
mais famoso. Ganhava muitos adeptos que defendiam a reconstrução moral, ética e
religiosa da sociedade brasileira. Passava-se o tempo e sua fiscalização ficava
mais intensa. Até os héteros evitavam apertar as mãos dos amigos, pois tinham
medo de, confundidos com um casal gay, serem multados pelo mau
uso do olho que tudo ver e nada fala.
Gorjão recebeu uma
milha processos. O ex-aposentado estava se embolado mais que corda de
caranguejo. Ele foi intimado, julgado, perdia algumas, ganhava outras até que a
coisa foi parar no Supremo Tribunal Federal...
É chegado o dia da audiência.
Gorjão acorda atrasadíssimo – o trabalho estava intenso lhe deixando abundantemente
cansado. Arruma-se com agilidade. No meio do caminho sente uma fome
desconfortável. Resolve comer um acarajé, mesmo estando em um sol escaldante às
10h da manhã. Chega ao supremo tribunal e a audiência só o esperava para
começar. Passado os trâmites legais de iniciação do julgamento o acusador, o
deputado Neam Xibilis, esfola Gorjão:
“Este senhor é um
deficitário mental. Não é possível que alguém em plena intelectualidade e
nobreza de espírito perca a ludicidade do seu tempo para criar uma lei profana.
Fiscalização de cu! Como pode uma coisa?! A sociedade brasileira nunca viu isso
antes na história deste país. Nem nos tempos da ditadura militar. Agora minhas
irmãs bichas não podem mais beijar, pegar, roçar ou apalpar um aipim. Por causa
de uma ação enfadonha deste velhaco. Nos gays não aceitamos isso de forma
alguma. O sexo é importante para os seres humanos e nos homossexuais tão
humanos que somos precisamos também dá de ré no quibe!..”
Gorjão começa a se
sentir mal. Sua feição muda tal quais as cores do arco-íris. Sua barriga começa
a vibrar. Algo não vai bem. Lembrou-se do maldito acarajé. O bolinho de feijão,
somado ao calor do verão baiano, começava a fazer efeito na sua barriga. Abriu
o cinto da calça e desabotoou também o botão que lhe apertava a cintura; aquela
compressão não colaborava mesmo. As palavras do deputado Neam Xibilis não
estavam nem fazendo sentido para os ouvidos do fiscal:
“Eu peço então a esta
suprema corte que acabe com essa exagerada vergonha. Pois um país como este não
pode tolerar o embargo dos chicotes, butuins, furicos, roscas, tobas, regos,
forevis, fiofós e anéis alheios!” Terminou o deputado.
Boa parte dos presentes
aplaudiu calorosamente a fala do Neam. Outros defensores da ideia do Gorjão
soltaram uma vaia estridente.
O ministro Etevaldo Retadovisk,
responsável pela condução da audiência, continuou o julgamento, pegou o martelo
da lei e deu três batidas bem seguras na mesa:
“Silêncio seus cambadas
de mal educados! Não quero manifestação alguma neste tribunal. Recolham-se as
suas respectivas insignificâncias. Eu não estou nem gostando de estar aqui, em
pleno verão, com este sol gostoso, perdendo a oportunidade de estar na praia,
em Itapuã. E vocês querem fazer deste tribunal um brega?! Quem piscar o olho
irá dormi no xilindró.”
A plateia virou estátua
de Sal. O ministro excelentíssimo Etevaldo Retadovisk avançou com a sessão:
“Que venha o senhor
Gorjão defender-se!”
Gorjão já estava nas
últimas. Sua boca espumou, os poros choravam suor e a barriga vivenciava uma
terrível tempestade. O fiscal de cu levantou-se, andava bem devagar, segurando
as calças semiabertas. Todos os presentes fixavam os olhares nele estranhado o
seu comportamento. Aquele ser imponente, imperativo, intempestivo agora estava
calmíssimo, apesar da cara de javali. Com seus passos lentos chegou ao centro do
tribunal. Tinha dúvidas se conseguiria falar. O supremo juiz ordenou:
“Pois então senhor
Gorgão desembuche!”
Gorjão mal conseguia
respirar, dirás falar. Suas tripas não lhe perdoaram, se agitavam descontroladas,
a reclamar do acarajé, a querer expulsar aquela gordura saturada das suas entranhas.
Gorjão se contorcia mais e mais. Os presentes começaram a perceber que ele não
estava se sentindo bem. A barriga de Gorjão vibrou, os gatos aranhavam as
tripas, a tsunami bateu e Gorjão não aguentou... Em um descuido sua calça caiu...
Gorjão DEFECOU! CAGOU! SE BORROU! Uma merda fedorenta e aguada. Todos do tribunal
taparam o nariz. E riram da desgraça de Gorjão. As travestis da primeira fila
não perdoaram nos comentários e aos berros soltavam:
- A bicha passou
cheque!
- Sai pra lá
cagona!
- Que horror!
Este cu tá rasgado!
- Salvai a sopa
de bosta!
- Ela esqueceu a
fralda geriátrica!
A vossa
excelência, o ministro Etevaldo Retadovisk não acreditava no que seus olhos
acabaram de assistir. Pegou o seu martelo – que eu pensei que jogaria na cara
de Gorjão – e não demorou a dar a sentença (todos se levantaram):
“Depois desta
cena ordinária, deprimente e absurda, eu não tenho dúvidas do resultado desta
audiência. Está suspenso todo e qualquer tipo de fiscalização do cu alheio.
QUEM NÃO TEM CONTROLE SOBRE SEU PRÓPRIO CU, NÃO PODE CONTROLAR O CU DOS OUTROS!”
Aplausos,
gritos, purpurinas e confetes.