quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

SEGUE MARIA


Segue em frente Maria
A vida é vazia, mas o mundo é nosso
O horizonte é nosso
Os sonhos são nossos.
O chão é quente
Os espinhos potentes
Como o veneno da cobra.
Diga não Maria
Diga sim Maria
Diga não Maria
A quem mandar você fazer
Faça o que quiser !
Você é Deus
O caminho é seu
A cabeça é sua
A pele é sua
Os olhos são teus.
Não olhe para trás
Não Agora.
Só olhe para trás
Quando for a hora.
Não queira virar sal.
Não queira o mal
Consuma o tempo.
Tempo tormento.
A vida Maria não é graça
Não é de graça
É desgraça.
Cada sorriso dado
É dádiva Maria.
Sorria. Afaste a morte.
Sorria Maria, muito
A comédia é a tragédia bem contada.
Não olhe para o relógio Maria.
Viva a vida.
Viva à vida!
O relógio passa
O tempo passa
A roupa passa
A vida passa.
A Maria não fica.
A Maria passa
Outra Maria tem que surgir.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O FISCAL DE CU



Gorjão Campinei era soldado aposentado da marinha. Vivia sem ter o que fazer, após ter saído das forças armadas. Sua vida monótona o colocava em um lugar de tristeza profunda. Ele precisava de algo que desse significado a sua existência. No banco da Praça Piedade (coisa que custava fazer diariamente, sempre que a agonia da solidão lhe batia em casa), de pernas cruzadas e olhos atentos ele avistou um casal de homens andando de mãos dadas, até que um deixa o companheiro na porta de uma clínica médica e dá-lhe um selinho de despedida. Este foi o grande “despertar”. Descobriu, a parti daquela visão, o sentido da sua aposentadovida!

Noutro dia cedinho Gorjão foi até a prefeitura municipal. Queria abrir um negócio próprio. Seria um fiscal ambulante. Como bom cumpridor da lei não fazia nada que estivesse fora das normas, do papel, da assinatura. Chegou para a atendente, entregando-lhe uma pasta cheia de documentação e largou o verbo: “Tá aqui minha senhora! Anote as coisas aí e me dê uma autorização. Eu quero ser “FISCAL DE CU!”.

Para minha surpresa, para tua surpresa, para nossa surpresa a atendente não se surpreendeu. Olhou para cara do velho admirada, após ler o que estava escrito como a função de um FISCAL DE CU:

  •     Observar, averiguar, multar e prender (se for o caso!) aqueles que utilizam ou têm maior probabilidade de utilizar o “orifício corrugado possuidor de maus odores” de forma errônea, anticristã e antinatural.


A atendente beijou o crucifixo que estava em seu pescoço e exaltou: “Deus seja louvado! Precisamos de mais pessoas como o senhor. Este mundo esta se perdendo e só senhores com o senhor poderá fazer com que tudo volte a ser como o Senhor lá de cima deixou aqui em baixo.”. [A imagem do crucifixo tapou os ouvidos.] Sem pressa, sem demora e, como se ali não fosse uma repartição pública, toda a documentação foi carimbada, assinada e homologada. O FISCAL DE CU estava pronto para atacar – e encoberto pela lei!

Não demorou para que o bendito Gorjão colocasse a sua nova atividade profissional em prática. E sabia que poderia ganhar muito dinheiro fiscalizando o cu alheio. Deu uma olhada rápida na internet e achou um panfleto turístico que indicava todos os pontos ditos GLS da capital baiana. Sendo ele, pois, o salvador do cu dos patriotas mataria, então, três coelhos com uma fiscalizada só: traria o cu de volta ao só seu lugar de uso natural, salvaria os pecadores e ficaria rico. Montou sua estratégia e noutro dia, numa sexta-feira ensolarada saiu de casa: com sua prancheta, uma farda azul com uma pintura mal feita de um ânus sendo penetrado por um pênis, cortado com um X de PROIBIDO e uma caneta bic, do camelô, que custa cinquenta centavos.

Pela manhã foi à praia da Barra e atrás do farol seu coração disparou: vários homos se beijando, se atracando com imensas probabilidades dos cus serem usados de maneiras erradas. Multou todos os casais gays que se acariciavam, roçavam e apalpavam-se. Para cada ação a tabela de multa continha um valor, seguindo a lógica da maior probabilidade de risco do mau uso do cu:

BEIJO: 20,00 reais.
AMASSOS: 40,00 reais.
PEGADAS NA MANDIOCA: 60,00 reais
CHUPADAS NA MANDIOCA: 100,00 reais.
SENTADA NA MANDIOCA E AFINS: 200,00 reais.

Poderiam pagar depois, mas na hora tinham 10% de desconto e ele aceitava cartão. Só pela manhã, no Porto da Barra, foram 51 multas. E seguiram-se os pontos:

A tarde ele passou em várias saunas da cidade, outros lugares estratégicos como o “Sofá da Hebe”, Jardim de Alah e alguns bares como o Âncora do Marujo sendo só aí 87 multados. De noite ele foi a três boates: a TROPICAL, a SAN SEBASTIAN e a AMSTERDAN. Resultando na sua busca noturna em 120 canetadas.

Vixe! A madrugada no facebook foi alvoraçada: bichas, travestis, gays, goys, andrógenos, transformistas comentavam e compartilhavam informações a respeito do FISCAL DE CU. Alguém tinha que tomar uma providência. Associações como a GGB (Grupo Gay da Bahia) e a ATRAS (Associação das Travestis de Salvador) publicavam manifestos contra este ato incoerente que ia de contra a liberdade de expressão. Os dias passavam e a situação ia piorando. Repórteres entrevistavam o deputado esquerdista e defensor das minorias Neam Xibilis e o fiscal de cu Gorjão. Eram ataques de todos os lados. As melhores mídias televisivas como Se liga Bocão, Na Mira e nacionalmente o Ratinho organizavam debates que confrontavam pessoas que defendiam ou atacavam a fiscalização do cu alheio.    

Gorjão ficava cada vez mais famoso. Ganhava muitos adeptos que defendiam a reconstrução moral, ética e religiosa da sociedade brasileira. Passava-se o tempo e sua fiscalização ficava mais intensa. Até os héteros evitavam apertar as mãos dos amigos, pois tinham medo de, confundidos com um casal gay, serem multados pelo mau uso do olho que tudo ver e nada fala.

Gorjão recebeu uma milha processos. O ex-aposentado estava se embolado mais que corda de caranguejo. Ele foi intimado, julgado, perdia algumas, ganhava outras até que a coisa foi parar no Supremo Tribunal Federal...

É chegado o dia da audiência. Gorjão acorda atrasadíssimo – o trabalho estava intenso lhe deixando abundantemente cansado. Arruma-se com agilidade. No meio do caminho sente uma fome desconfortável. Resolve comer um acarajé, mesmo estando em um sol escaldante às 10h da manhã. Chega ao supremo tribunal e a audiência só o esperava para começar. Passado os trâmites legais de iniciação do julgamento o acusador, o deputado Neam Xibilis, esfola Gorjão:

“Este senhor é um deficitário mental. Não é possível que alguém em plena intelectualidade e nobreza de espírito perca a ludicidade do seu tempo para criar uma lei profana. Fiscalização de cu! Como pode uma coisa?! A sociedade brasileira nunca viu isso antes na história deste país. Nem nos tempos da ditadura militar. Agora minhas irmãs bichas não podem mais beijar, pegar, roçar ou apalpar um aipim. Por causa de uma ação enfadonha deste velhaco. Nos gays não aceitamos isso de forma alguma. O sexo é importante para os seres humanos e nos homossexuais tão humanos que somos precisamos também dá de ré no quibe!..”

Gorjão começa a se sentir mal. Sua feição muda tal quais as cores do arco-íris. Sua barriga começa a vibrar. Algo não vai bem. Lembrou-se do maldito acarajé. O bolinho de feijão, somado ao calor do verão baiano, começava a fazer efeito na sua barriga. Abriu o cinto da calça e desabotoou também o botão que lhe apertava a cintura; aquela compressão não colaborava mesmo. As palavras do deputado Neam Xibilis não estavam nem fazendo sentido para os ouvidos do fiscal:

“Eu peço então a esta suprema corte que acabe com essa exagerada vergonha. Pois um país como este não pode tolerar o embargo dos chicotes, butuins, furicos, roscas, tobas, regos, forevis, fiofós e anéis alheios!” Terminou o deputado.

Boa parte dos presentes aplaudiu calorosamente a fala do Neam. Outros defensores da ideia do Gorjão soltaram uma vaia estridente.

O ministro Etevaldo Retadovisk, responsável pela condução da audiência, continuou o julgamento, pegou o martelo da lei e deu três batidas bem seguras na mesa:

“Silêncio seus cambadas de mal educados! Não quero manifestação alguma neste tribunal. Recolham-se as suas respectivas insignificâncias. Eu não estou nem gostando de estar aqui, em pleno verão, com este sol gostoso, perdendo a oportunidade de estar na praia, em Itapuã. E vocês querem fazer deste tribunal um brega?! Quem piscar o olho irá dormi no xilindró.”

A plateia virou estátua de Sal. O ministro excelentíssimo Etevaldo Retadovisk avançou com a sessão:

“Que venha o senhor Gorjão defender-se!”

Gorjão já estava nas últimas. Sua boca espumou, os poros choravam suor e a barriga vivenciava uma terrível tempestade. O fiscal de cu levantou-se, andava bem devagar, segurando as calças semiabertas. Todos os presentes fixavam os olhares nele estranhado o seu comportamento. Aquele ser imponente, imperativo, intempestivo agora estava calmíssimo, apesar da cara de javali. Com seus passos lentos chegou ao centro do tribunal. Tinha dúvidas se conseguiria falar. O supremo juiz ordenou:

“Pois então senhor Gorgão desembuche!”

Gorjão mal conseguia respirar, dirás falar. Suas tripas não lhe perdoaram, se agitavam descontroladas, a reclamar do acarajé, a querer expulsar aquela gordura saturada das suas entranhas. Gorjão se contorcia mais e mais. Os presentes começaram a perceber que ele não estava se sentindo bem. A barriga de Gorjão vibrou, os gatos aranhavam as tripas, a tsunami bateu e Gorjão não aguentou... Em um descuido sua calça caiu... Gorjão DEFECOU! CAGOU! SE BORROU! Uma merda fedorenta e aguada. Todos do tribunal taparam o nariz. E riram da desgraça de Gorjão. As travestis da primeira fila não perdoaram nos comentários e aos berros soltavam:

- A bicha passou cheque!
- Sai pra lá cagona!
- Que horror! Este cu tá rasgado!
- Salvai a sopa de bosta!
- Ela esqueceu a fralda geriátrica!

A vossa excelência, o ministro Etevaldo Retadovisk não acreditava no que seus olhos acabaram de assistir. Pegou o seu martelo – que eu pensei que jogaria na cara de Gorjão – e não demorou a dar a sentença (todos se levantaram):

“Depois desta cena ordinária, deprimente e absurda, eu não tenho dúvidas do resultado desta audiência. Está suspenso todo e qualquer tipo de fiscalização do cu alheio. QUEM NÃO TEM CONTROLE SOBRE SEU PRÓPRIO CU, NÃO PODE CONTROLAR O CU DOS OUTROS!”

Aplausos, gritos, purpurinas e confetes.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

LAMENTAÇÕES À SANTA BÁRBARA


Santa Bárbara iê, iê
Santa Bárbara Iá, iá
Santa Bárbara, santa?
Santa Barbará.
A Santa espada iê, iê
A decepada iá, iá
Por que foste atingida?
Santa Barbará.
Sua revolta iê, iê
Aonde foi parar?
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
O raio era bem vindo.
Para o algoz destronar.
Por que esperar-te morrer
Para se manifestar?
O raio te salvaria
Santa barbará.
Tão protetora iê, iê
Santa tão santa iá, iá
Não te salvaste ô Santa
A quem então salvará?
Essa candura iê, iê
Não há no vermelho Iá, iá
Espada e comando dos ventos
Iansã te ajudará.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Manguezais e Palafitas



Água salobra, manguezais, caranguejos, crustáceos. Casa sustentada pelos membros robustos de uma árvore morta. Lama, fungos, decomposição. Senhora da morte, que dá e tira; mãe do curador. Ali mora a mais velha das velhas.

Neste lugar, onde as águas do Una em plena rebeldia invadia a invasão, eu via em baixo da minha casa a lama se assentar dando espaço para as águas preencher o seu lugar que é de direito. Não tive medo de ver tudo enchendo. Alegrava-me por poder morar em cima do mangue que vez em quando virava rio. Era meu coração que acompanhava aquele ciclo. Ida, volta, água doce, lama, cheio, vazio.

A força do diálogo entre mangue e rio obrigava que as estacas das palafitas fossem observadas constantemente. Madeira apodrece. O mangue já é podre de tanta vida. Os invasores são invadidos. As palafitas são refúgios de vidas. E os barracos flutuantes sempre desmoronavam.

O quintal era uma floresta de mangue-branco. Os animais de estimação: siris, guaiamuns, camarões, peixes, ostras, sururus... Ali é o berçário de todas as águas. Donde saiu a matéria prima que constitui a casca mais dura: fez-se o homem! Cinzenta mistura, refinada e homogênea, que nenhum ser vivente pode separar. Morte, vida, cíclico. O mundo precisa da lama.

Dessa lama o bicho racional surgiu. Dessa lama! Não deste barro. O barro endurece. Não é propício a mesma multiplicação e diversidades das vidas. A lama do mangue é molinha, mais que areia é o entre da vida e morte. É a necessidade de se renovar sempre. As nossas veias:  raízes protuberantes da flora deste lugar: sangue, seiva, líquido, coração.

Visitei a minha antiga palafita. Suas estacas de sustentação não foram revistas. A maré encheu, a maré vazou, o mangue a engoliu.