Água salobra,
manguezais, caranguejos, crustáceos. Casa sustentada pelos membros robustos de
uma árvore morta. Lama, fungos, decomposição. Senhora da morte, que dá e tira;
mãe do curador. Ali mora a mais velha das velhas.
Neste lugar, onde as
águas do Una em plena rebeldia invadia a invasão, eu via em baixo da minha casa
a lama se assentar dando espaço para as águas preencher o seu lugar que
é de direito. Não tive medo de ver tudo enchendo. Alegrava-me por poder morar
em cima do mangue que vez em quando virava rio. Era meu coração que acompanhava
aquele ciclo. Ida, volta, água doce, lama, cheio, vazio.
A força do diálogo
entre mangue e rio obrigava que as estacas das palafitas fossem observadas constantemente.
Madeira apodrece. O mangue já é podre de tanta vida. Os invasores são
invadidos. As palafitas são refúgios de vidas. E os barracos flutuantes sempre
desmoronavam.
O quintal era uma
floresta de mangue-branco. Os animais de estimação: siris, guaiamuns, camarões,
peixes, ostras, sururus... Ali é o berçário de todas as águas. Donde saiu a matéria
prima que constitui a casca mais dura: fez-se o homem! Cinzenta mistura, refinada e homogênea, que nenhum ser vivente pode separar. Morte, vida, cíclico. O mundo
precisa da lama.
Dessa lama o bicho
racional surgiu. Dessa lama! Não deste barro. O barro endurece. Não é propício a
mesma multiplicação e diversidades das vidas. A lama do mangue é molinha, mais
que areia é o entre da vida e morte. É a necessidade de se renovar sempre. As
nossas veias: raízes protuberantes da
flora deste lugar: sangue, seiva, líquido, coração.
Visitei a minha antiga
palafita. Suas estacas de sustentação não foram revistas. A maré encheu, a maré
vazou, o mangue a engoliu.
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