quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Manguezais e Palafitas



Água salobra, manguezais, caranguejos, crustáceos. Casa sustentada pelos membros robustos de uma árvore morta. Lama, fungos, decomposição. Senhora da morte, que dá e tira; mãe do curador. Ali mora a mais velha das velhas.

Neste lugar, onde as águas do Una em plena rebeldia invadia a invasão, eu via em baixo da minha casa a lama se assentar dando espaço para as águas preencher o seu lugar que é de direito. Não tive medo de ver tudo enchendo. Alegrava-me por poder morar em cima do mangue que vez em quando virava rio. Era meu coração que acompanhava aquele ciclo. Ida, volta, água doce, lama, cheio, vazio.

A força do diálogo entre mangue e rio obrigava que as estacas das palafitas fossem observadas constantemente. Madeira apodrece. O mangue já é podre de tanta vida. Os invasores são invadidos. As palafitas são refúgios de vidas. E os barracos flutuantes sempre desmoronavam.

O quintal era uma floresta de mangue-branco. Os animais de estimação: siris, guaiamuns, camarões, peixes, ostras, sururus... Ali é o berçário de todas as águas. Donde saiu a matéria prima que constitui a casca mais dura: fez-se o homem! Cinzenta mistura, refinada e homogênea, que nenhum ser vivente pode separar. Morte, vida, cíclico. O mundo precisa da lama.

Dessa lama o bicho racional surgiu. Dessa lama! Não deste barro. O barro endurece. Não é propício a mesma multiplicação e diversidades das vidas. A lama do mangue é molinha, mais que areia é o entre da vida e morte. É a necessidade de se renovar sempre. As nossas veias:  raízes protuberantes da flora deste lugar: sangue, seiva, líquido, coração.

Visitei a minha antiga palafita. Suas estacas de sustentação não foram revistas. A maré encheu, a maré vazou, o mangue a engoliu. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário