segunda-feira, 27 de março de 2017

Estou precisando ser passado a limpo.

Nem tinha acabado de nascer e já chorava pensando nisso.
Antes de sujar a primeira frauda já fazia merda.
Hoje não há fraudas para poder segurar as minhas cagadas.
Que seja melhor assim.
Estou precisando ser passado a limpo
Ser papel novo
Apagar com boa borracha
Meus rabiscos infantis.
Quando criança tomava banho na bacia de alumínio
Eram mais de três banhos
- Pra que tanto banho?
-Está tudo limpo. O banho é só pra refrescar!
Hoje menino-grande
Tomando banho de chuveiro
Estou bastante sujo.
Tomo várias duchas e continuo sujo.
Refresco e mato o calor
Mas a sujeira nada de limpar.
Coisa assim minha vô dizia que não é asseio de fora
É asseio de dentro.
Lacto purga, óleo de ricínio e leite de magnésio resolve!
Misturei os três e só caguei!
Passou o efeito há anos
Mas as cagadas continuam.
Não adianta querer ser homem-papel-novo
Bonitinho, cheirosinho, perfeitinho da mamãe.
Só é humano quem se deixa rabiscar.

Palavras não são rasas. Rasas são as pessoas.

Quando não nos atentamos ao significado complexo que uma palavra possui corremos sério risco de fazer mal uso dela. As palavras ditas se esvaziam, se confundem, se perdem. Amor se confunde com gostar. Respeito vira sinônimo de tolerância. Humildade soa como subalternidade. O cuidado fica pesado. A gratidão passa a ser devoção. Troca-se desculpas por perdão.
Existem palavras usadas de forma usurpadora. Tomam descaradamente o lugar de outras.
Há também aquelas que são esvaziadas. Compreendemos seu significado real, em letras e dicionários. Mas não compreendemos a força que estas possuem. Algumas deveriam ter uso limitado por tal preciosidade. Se muito nos servimos elas se desvalorizam; ao invés de ouro em pó, vira areia. Quem recebe não sente sua potência.
João recebeu um tapa na cara...
Desculpa!
Ofereceu o lado direito...
Desculpa!
O lado esquerdo...
Desculpa!
Todo o corpo...
Desculpa!
Resolveu enfrentar...
Perdão!
Outras palavras só me servem para além do dizer. Ganham força em verbo.
Beijo é pra ser dado. Abraço é pra ser apertado. Carinho é para ser sentido. Massagem é no músculo. Sexo é pra ser praticado. Comida é pra ser... comida!
Aqui não me desdobro sobre economia das palavras. Reflito sobre como não as tratamos, tantas vezes, com o devido respeito. Algumas, ao contrário das que se desvalorizam pela razoabilidade das pessoas, se nutrem dos bons corações. Quanto mais usadas mais aquece a alma daqueles que as desfrutam.
Bom dia!
Te amo!
Obrigado!
Estou com saudades!
É preciso conhecer o que se diz, porque diz e para quem diz.
Revise-se!
É preciso se conhecer de tal forma que o que for dito, o porquê é dito e para quem for dito seja emitido com a verdade de palavras não-suicidas.
Bendita sejam as pessoas para quem bem ditas sejam as palavras!

Dentro de mim mora um rio

Imenso rio de tantos eus
Espelho d'água
Labirinto das minhas mil almas
Onde fui me iniciar.
Eis o abebé de ouro, diamante e segredos
Onde só os olhos lavados
Enxergam as imagens

 Que minha alma escondeu por medo
Por medo de se revelar.
Dentro de mim mora um rio
Nascente coração
Cabeça cachoeira
Que mata em plena doçura
Da vida afogando a morte
E entrega à plena sorte
O pequeno Logunedé.
- Meu corpo se inunda das suas águas sagradas -
Eis um rio que me chama
Seguro. E ele chama.
Chama, canta, chama.
E eu desisto.
Vou. Mergulho e fico.
Ressurjo:
Meu rio. Meu início. Meu final.
Dentro de mim mora um rio
Senhor das minhas belezas
Todas prontas para se rebelar.
Mostra sua saia imensa
Canto manso eleva-nos ao orum
Eis um rio que me faz rio
Que me engradece por me mostrar contínuo
Canto ao rio. Rezo ao rio. Chamo o rio
Mas meu rio não se chama

Meu só se dança por
OXUM

Candomblé dos oprimidos ou Feitura dos insanos

Não me prendam em seus martírios
Em suas vozes falsas:
cantos para o diabo.
Sim, pois quem engana a si
Acreditando em suas mentiras
Engana também os outros
Alimentando falsas verdades
Esculpindo o seu próprio diabo.
Fugi dos louvores a Cristo
Pois custava caro viver a minha fé.
Em meio à natureza viva
Fui me reinventar.
Bati na porta do terreiro
Para sacudi meu desespero
E no chão reascender a minha luz
Nem bem cheguei
Minha cara foi ao chão
Tamanho era o preço do chão
Quanto custa para curar as feridas da alma?
Não reacendi a minha luz
Peguei de Jesus emprestada a cruz
Eles vão me chicotear!
Tem que raspar! Tem que raspar!
Por que tenho que entregar a cabeça
Se meus pés nem se sustentam nessa terra?
Se minha alma não vibra nessa casa?
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Eis o novo Deus Cristão
Condenando-me por ser anticristo.
Fugi da bíblia do inferno
E em meio aos orixás
Eles querem me queimar por rebeldia.
Cantam falso.
Cantam falso pro diabo.
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Calem-se hipócritas com suas falas sujas!
Tirem dos meus desejos suas vozes!
Tire do meu arbítrio sua reza impura!
É a vontade do santo!
É a precisão da casa casa!
O meu corpo era o sacrifício
Mas ninguém me perguntava
Eis o mistério da fé:
No candomblé o cristianismo se reinventara.
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Vou ficar de mal com Olorum
Até ele me explicar
Porque o preto fodido
Não pode mais se iniciar
Pois irmãos não são mais irmãos
Esqueceram-se do lamento da senzala
Tudo é ouro. Nada é pão.
Todo preço tem sua ilusão.
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Nem adianta dizer o que eu não sei
Para dizer o que eu já sei
Sua perna é muito grande
Mas não vou cair com tua rasteira
Vou chamar por Exu
Ele me defendeu ontem
Da queda que você pensa em amanhã me dar.
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Os orixás estão indo embora?
Deixando os ibás vazios?
Eles não estão famintos de ebós
Mas de verdade, honestidade, brio.
Tem que raspar! Tem que raspar!
Tem que suspender! Tem que confirmar!
Não vão me raspar! [Se eu não quiser]
Não vão me confirmar!  [Se eu não aceitar]
Meu corpo minha regras [Com elas dialogo]
Todo e qualquer deus
Tem que respeitar!

quinta-feira, 16 de março de 2017

Estou precisando ser passado a limpo

Nem tinha acabado de nascer e já chorava pensando nisso.
Antes de sujar a primeira frauda já fazia merda.
Hoje não há fraudas para poder segurar as minhas cagadas.
Que seja melhor assim.
Estou precisando ser passado a limpo
Ser papel novo
Apagar com boa borracha
Meus rabiscos infantis.
Quando criança tomava banho na bacia de alumínio
Eram mais de três banhos
- Pra que tanto banho?
-Está tudo limpo. O banho é só pra refrescar!
Hoje menino-grande
Tomando banho de chuveiro
Estou bastante sujo.
Tomo várias duchas e continuo sujo.
Refresco e mato o calor
Mas a sujeira nada de limpar.
Coisa assim minha vô dizia que não é asseio de fora
É asseio de dentro.
Lacto purga, óleo de ricínio e leite de magnésio resolve!
Misturei os três e só caguei!
Passou o efeito há anos
Mas as cagadas continuam.
Não adianta querer ser homem-papel-novo
Bonitinho, cheirosinho, perfeitinho da mamãe.
Só é humano quem se deixa rabiscar.

Palavras não são rasas. Rasas são as pessoas.


Quando não nos atentamos ao significado complexo que uma palavra possui corremos sério risco de fazer mal uso dela. As palavras ditas se esvaziam, se confundem, se perdem. Amor se confunde com gostar. Respeito vira sinônimo de tolerância. Humildade soa como subalternidade. O cuidado fica pesado. A gratidão passa a ser devoção. Troca-se desculpas por perdão.
Existem palavras usadas de forma usurpadora. Tomam descaradamente o lugar de outras.
Há também aquelas que são esvaziadas. Compreendemos seu significado real, em letras e dicionários. Mas não compreendemos a força que estas possuem. Algumas deveriam ter uso limitado por tal preciosidade. Se muito nos servimos elas se desvalorizam; ao invés de ouro em pó, vira areia. Quem recebe não sente sua potência.
João recebeu um tapa na cara...
Desculpa!
Ofereceu o lado direito...
Desculpa!
O lado esquerdo...
Desculpa!
Todo o corpo...
Desculpa!
Resolveu enfrentar...
Perdão!
Outras palavras só me servem para além do dizer. Ganham força em verbo.
Beijo é pra ser dado. Abraço é pra ser apertado. Carinho é para ser sentido. Massagem é no músculo. Sexo é pra ser praticado. Comida é pra ser... comida!
Aqui não me desdobro sobre economia das palavras. Reflito sobre como não as tratamos, tantas vezes, com o devido respeito. Algumas, ao contrário das que se desvalorizam pela razoabilidade das pessoas, se nutrem dos bons corações. Quanto mais usadas mais aquece a alma daqueles que as desfrutam.
Bom dia!
Te amo!
Obrigado!
Estou com saudades!
É preciso conhecer o que se diz, porque diz e para quem diz.
Revise-se!
É preciso se conhecer de tal forma que o que for dito, o porquê é dito e para quem for dito seja emitido com a verdade de palavras não-suicidas.
Bendita sejam as pessoas para quem bem ditas sejam as palavras!