quinta-feira, 4 de maio de 2017

A segunda morte de Jesus: sem cruz, sem justiça, nem piedade

Uma parte significativa dos cristãos não está pensando prioritariamente na sua espiritualidade, tão pouco na filosofia de existência proposta por Jesus. Eles estão preocupados em sustentar o falso poder que a bíblia sagrada, em recortes que contemplam seus interesses, pode lhe conceder.

Jesus não está em segundo plano. Jesus simplesmente não está. 

Um sujeito que lê atentamente o evangelho compreende a distância entre o discurso de Cristo e aquilo que vem sendo propagado pelos seus ditos fiéis na contemporaneidade. Jesus não deveria ser uma palavra, mas um modo de ser/existir. A grande contradição desses cristãos é o desencontro entre a organização prática daquilo proposto por Cristo e suas atitudes que distorcem os seus principais ensinamento em função da manutenção de poderes.

A bíblia não é mais o livro sagrado. A bíblia há tempos vem perdendo a sua função sacral e passando a ser um livro de legitimidade de discursos, ainda que sua interpretação seja permeada por visões completamente distorcidas. Ela não é mais a palavra de Deus. Ela é a palavra do poder. O poder não é Deus. O poder tem que ser o discurso legitimado. Deus é apenas uma representação do poder (obtido ou que quer ser obtido) neste contexto. 

Quanto mais condensado em uma reprodução de pensamento mais manipulado o sujeito pode ser. Assim sendo, a ideia de que o tempo e o espaço já são elementos que transformaram e permanece transformando o cristianismo é impensável - para os fieis menos atentos. Os manipuladores, entretanto, sabem bem disso e é com essa consciência que eles manipulam. A ideia sublimada é desnutrir toda filosofia religiosa que Jesus propõe em profundidade e alimentar uma filosofia religiosa que utilize o sagrado como meio de fortalecer discursos que, sendo justificados por uma origem sagrada, não podem (nessa perspectiva) ser questionados por seus fieis e se estabelece como barreiras às críticas exógenas. 

Os bons Cristãos atentos precisam analisar a maneira como sua religião/religiosidade está sendo encaminhada e propor outros modos de se organizar em comunidade e burlar aqueles que estão matando a Jesus sem cruz, sem justiça, nem piedade.

domingo, 23 de abril de 2017

Comédia em Cordel "Viva a Santo Antônio"

Release: A peça acontece no último dia da trezena de Santo Antônio. Margarida, filha do prefeito, participa da festa como o objetivo maior de conseguir um noivo para casar. João Capeta, empregado do prefeito, é a personagem que causa as atrapalhações da estória. Santo Antônio se apresenta como um santo mais brincalhão e atrapalhado que não consegue atender a rigor o pedido da moça. Entre cordel, rezas de Santo Antônio, dança e música desenvolve-se a jocosa história da Margarida que quer casar.

TRECHO:

Margarida- (Dengosa) Ô meu santinho...  Arrume um macho pra mim, vá!
Prefeito- (Bravo) Se respeite Margarida!
João Capeta- Ou ao menos respeite a presença do senhor seu pai!
Prefeito- É isso mesmo!
Margarida- Puxa saco!
Prefeito- Eu espero que tu, João Capeta, continue puxando o meu saquinho.
Prefeito- Quanta modéstia senhor prefeito, o senhor tem é um sacão!
Margarida- O que há demais, meu pai, em eu querer arranjar um homem pra mim?
João Capeta- A questão não é o que há demais, mas o que há de menos!
Margarida- De menos?
João Capeta- Sim. Se tu arranjar um homem, tenha certeza, que vai ficar com alguma coisa a menos...
Margarida- Do que João capeta está falando meu pai?
Prefeito- João Capeta, o senhor está falando do quê?
João Capeta- (Tom de enfrentamento) Ora prefeito, não seja besta, jumento, idiota...
Prefeito- O que rapaz?!
João Capeta- (Tom mais ameno). Eu quero que o senhor rememore a primeira noite que tu teve com a sua mulher
Prefeito – A primeira noite?
Margarida- (Ingênua) O que teve na primeira noite?
João Capeta- A noite que teu pai te fez junto com a tua mãe!
Margarida- A noite que o meu pai e mamãe me fez?!
Prefeito- Senhor João Capeta, eu acho que o senhor está indo longe demais...
João Capeta- (Sem dar atenção ao Prefeito) Pra você nascer, Margarida, tua mãe teve que perder algo!
Margarida- Eu acho que foi dinheiro. Pois ela teve que pagar para cegonha me trazer!
João Capeta- Cegonha? Em tempos de facebuqui a senhorita ainda acredita em cegonha?!
Margarida- Claro! Não é assim que os bebês nascem?
João Capeta- (Rindo) Ô coitada!
Prefeito- (Agarrando-o pela camisa) Se o senhor continuar a pôr minhocas na cabeça da minha filha eu arranco teu pescoço fora!
João Capeta- (Soltando-se) Vamos rezar para Santo Antônio que é melhor!

Todos os direitos reservados a Van Sena.

sábado, 22 de abril de 2017

Texto teatral A casa dos espelhos

 Release: O monólogo é uma reflexão sobre a alma humana. Dilemas, conflitos, consciência da existência constroem, através do texto, da música e poesia, o diálogo entre a personagem e seu eu e entre a personagem e seus espectadores. Em um dia qualquer um ator toma consciência do seu lugar no teatro. Percebendo que não tem memórias lúcidas da sua vida anterior ao tempo presente e entendendo os seus dias repetido e comuns ele começa a questionar-se de fato é um homem ou uma personagem que tem a vida escrita e dominada por um autor desconhecido.

TRECHO:

Ator- (Cospe no chão, ajoelha-se e brinca com a sua saliva) A tua fé te salvou. Agora tu enxergarás! (Volta a brincar com a sua saliva. Vai olhando ainda ajoelhado, para os céus.) Deus de merda! Com todo o poder que tem por que deixa que suas criaturas façam o que bem entendem? (Levantando-se). E por que eu? Por que eu fui o escolhido para ser dominado por ti? Eu um mero ator que vive perdido neste mundo vazio. Eu que vivo a minha vidinha medíocre e que me perdi na repetição de uma rotina construída pelo desconhecido. Deus... Deus... Deus!!! Abra a sua boca e não fique calado diante da minha voz. Veja no que você transformou a minha vida. (Pausa.) Está certo. Não vou colocar a culpa em um ser que eu não vejo, não sinto. Um ser que eu não sei muito bem quem é. Sei que este espaço foi feito por ele. E esses reflexos são os reflexos dele. Vou me calar, vou tentar ouvir ou sua voz ou o silêncio. (Deita no chão). Não adianta brigar com o universo. Ele é maior do que eu. Não adianta jogar pedras no mundo, ele não é só meu. Quando o sol bater no meu rosto me alegrarei. Algo de especial vai acontecer... E se não acontecer.... Morrer será melhor que viver. Morrer não é pecado, pecado é não saber o que é a vida; é não saber viver. Ahh Deus atrevido. Deus infinito que debocha da cara dos seus filhos. (Levantando-se) O que farei para seguir tranquilo o meu caminho? O que farei para não continua sozinho?


Todos os direitos autorais reservardo a Van Sena.

sábado, 8 de abril de 2017

Apocalipse 3, 16

Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.
E na calmaria da preguiça jaz a inércia que não te movimentas.
Sou rebelde não pelo desejo da contenda vazia.
Minha rebeldia alimenta a minha existência.
Quem ama não desiste. Nem dos outros, nem de si.
Os mornos paralisam na desistência de cuidar do seu ego.
Apodrecem na amargura de não conseguir dialogar com a complexidade do mundo.
Eis os tormentos da minha alma que me apavoram.
Também são estes que me tiram do lugar de conforto.
Batem na minha cara para me despertar e eu revido.
Não quero apanhar da vida e me aquietar.
Labuto para aprender a aprender e praticar o que aprendi.
Desejo executar bem a minha obra.
Sem ser mais um sendo menos um a cada instante.
Sendo morno me consumiria na dor, em silêncio inoportuno.
Sem os conflitos não conseguiria enxergar a felicidade no simples.
A tormenta me sacode para eu me perceber então.
Estive quente. Estive frio. Ontem eu estava frio. Hoje estou quente.
Recuso-me a permanecer no meio desequilibrado.
Não falo, pois, do meio temperado.
Falo do meio morno. Que não cheira, nem fede. Não retrocede, nem avança.
Não é homem, nem velho, tão pouco criança.
Conhece pouco ou nada de si.
E por isso não se movimenta no espaço, no corpo, no espírito, nem na alma.
Não constrói a sua falta no âmago do outro.
Morno por conforto.
Morno por inércia.
Morno para dizer à vida que ela é que deve tomar a direção e o rumo.
E se ela te coloca no abismo o que se faz?
Se joga ou vai embora?
Ou por autopunição permanece olhando das alturas eternamente para o precipício?
A vida é muito curta para ser pequena.
Morno: não interfere, interage ou modifica.
Por que ser então?
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Supérfluo

Nada é meu
Nem o sol, nem a terra, nem o fogo tão pouco o ar.
Nem as rizadas, nem as tristezas, nem o melodrama e o lamentar.
Nem a casa, nem as muralhas, nem a comida, nem o fogão
Nem a cama, nem o chuveiro, nem o sofá, nem o chão.
Nada é meu e nada vou levar:
Nem a espada, nem a luta
Nem a guerra, nem a fé
Nem o xaxará de o Omolu
Nem a beleza de Logun Edé.
Nem as rezas católicas
Nem as orações protestantes
Nem os batuques de candomblé
Nenhum colar de Gandhi.
Nem meus livros
Nem minhas crenças
Até minha torre de babel
Jazerá no esquecimento
Desfeita ao vento
Tal qual folha de papel.
Nem a arrogância, nem a benevolência
Nem a tragédia, nem a comédia
Nenhuma das minhas palavras
Livrar-se da perpetua inércia.
Minha doçura, ternura ou brandura
Não herdará o reino da Terra.
Nem lembrança ficará
Pois no fim tudo se encerra.
Pra que amar o ouro?
Pra que se vangloriar?
Na busca da humildade
A transcendência vai brilhar
Cresce o homem e sua alma
Plenitude do estar.
Hoje, hoje
Hoje agora.
Amanhã jamais será.
Nada é meu e nada levo
Nem agonia, nem solidão
Nem amores, nem amados
Muito menos a depressão
Nem amigos, nem namorado
Nem família, nem o ego inflado
Tudo vivo
Vivo então...

segunda-feira, 27 de março de 2017

Estou precisando ser passado a limpo.

Nem tinha acabado de nascer e já chorava pensando nisso.
Antes de sujar a primeira frauda já fazia merda.
Hoje não há fraudas para poder segurar as minhas cagadas.
Que seja melhor assim.
Estou precisando ser passado a limpo
Ser papel novo
Apagar com boa borracha
Meus rabiscos infantis.
Quando criança tomava banho na bacia de alumínio
Eram mais de três banhos
- Pra que tanto banho?
-Está tudo limpo. O banho é só pra refrescar!
Hoje menino-grande
Tomando banho de chuveiro
Estou bastante sujo.
Tomo várias duchas e continuo sujo.
Refresco e mato o calor
Mas a sujeira nada de limpar.
Coisa assim minha vô dizia que não é asseio de fora
É asseio de dentro.
Lacto purga, óleo de ricínio e leite de magnésio resolve!
Misturei os três e só caguei!
Passou o efeito há anos
Mas as cagadas continuam.
Não adianta querer ser homem-papel-novo
Bonitinho, cheirosinho, perfeitinho da mamãe.
Só é humano quem se deixa rabiscar.

Palavras não são rasas. Rasas são as pessoas.

Quando não nos atentamos ao significado complexo que uma palavra possui corremos sério risco de fazer mal uso dela. As palavras ditas se esvaziam, se confundem, se perdem. Amor se confunde com gostar. Respeito vira sinônimo de tolerância. Humildade soa como subalternidade. O cuidado fica pesado. A gratidão passa a ser devoção. Troca-se desculpas por perdão.
Existem palavras usadas de forma usurpadora. Tomam descaradamente o lugar de outras.
Há também aquelas que são esvaziadas. Compreendemos seu significado real, em letras e dicionários. Mas não compreendemos a força que estas possuem. Algumas deveriam ter uso limitado por tal preciosidade. Se muito nos servimos elas se desvalorizam; ao invés de ouro em pó, vira areia. Quem recebe não sente sua potência.
João recebeu um tapa na cara...
Desculpa!
Ofereceu o lado direito...
Desculpa!
O lado esquerdo...
Desculpa!
Todo o corpo...
Desculpa!
Resolveu enfrentar...
Perdão!
Outras palavras só me servem para além do dizer. Ganham força em verbo.
Beijo é pra ser dado. Abraço é pra ser apertado. Carinho é para ser sentido. Massagem é no músculo. Sexo é pra ser praticado. Comida é pra ser... comida!
Aqui não me desdobro sobre economia das palavras. Reflito sobre como não as tratamos, tantas vezes, com o devido respeito. Algumas, ao contrário das que se desvalorizam pela razoabilidade das pessoas, se nutrem dos bons corações. Quanto mais usadas mais aquece a alma daqueles que as desfrutam.
Bom dia!
Te amo!
Obrigado!
Estou com saudades!
É preciso conhecer o que se diz, porque diz e para quem diz.
Revise-se!
É preciso se conhecer de tal forma que o que for dito, o porquê é dito e para quem for dito seja emitido com a verdade de palavras não-suicidas.
Bendita sejam as pessoas para quem bem ditas sejam as palavras!