domingo, 23 de abril de 2017

Comédia em Cordel "Viva a Santo Antônio"

Release: A peça acontece no último dia da trezena de Santo Antônio. Margarida, filha do prefeito, participa da festa como o objetivo maior de conseguir um noivo para casar. João Capeta, empregado do prefeito, é a personagem que causa as atrapalhações da estória. Santo Antônio se apresenta como um santo mais brincalhão e atrapalhado que não consegue atender a rigor o pedido da moça. Entre cordel, rezas de Santo Antônio, dança e música desenvolve-se a jocosa história da Margarida que quer casar.

TRECHO:

Margarida- (Dengosa) Ô meu santinho...  Arrume um macho pra mim, vá!
Prefeito- (Bravo) Se respeite Margarida!
João Capeta- Ou ao menos respeite a presença do senhor seu pai!
Prefeito- É isso mesmo!
Margarida- Puxa saco!
Prefeito- Eu espero que tu, João Capeta, continue puxando o meu saquinho.
Prefeito- Quanta modéstia senhor prefeito, o senhor tem é um sacão!
Margarida- O que há demais, meu pai, em eu querer arranjar um homem pra mim?
João Capeta- A questão não é o que há demais, mas o que há de menos!
Margarida- De menos?
João Capeta- Sim. Se tu arranjar um homem, tenha certeza, que vai ficar com alguma coisa a menos...
Margarida- Do que João capeta está falando meu pai?
Prefeito- João Capeta, o senhor está falando do quê?
João Capeta- (Tom de enfrentamento) Ora prefeito, não seja besta, jumento, idiota...
Prefeito- O que rapaz?!
João Capeta- (Tom mais ameno). Eu quero que o senhor rememore a primeira noite que tu teve com a sua mulher
Prefeito – A primeira noite?
Margarida- (Ingênua) O que teve na primeira noite?
João Capeta- A noite que teu pai te fez junto com a tua mãe!
Margarida- A noite que o meu pai e mamãe me fez?!
Prefeito- Senhor João Capeta, eu acho que o senhor está indo longe demais...
João Capeta- (Sem dar atenção ao Prefeito) Pra você nascer, Margarida, tua mãe teve que perder algo!
Margarida- Eu acho que foi dinheiro. Pois ela teve que pagar para cegonha me trazer!
João Capeta- Cegonha? Em tempos de facebuqui a senhorita ainda acredita em cegonha?!
Margarida- Claro! Não é assim que os bebês nascem?
João Capeta- (Rindo) Ô coitada!
Prefeito- (Agarrando-o pela camisa) Se o senhor continuar a pôr minhocas na cabeça da minha filha eu arranco teu pescoço fora!
João Capeta- (Soltando-se) Vamos rezar para Santo Antônio que é melhor!

Todos os direitos reservados a Van Sena.

sábado, 22 de abril de 2017

Texto teatral A casa dos espelhos

 Release: O monólogo é uma reflexão sobre a alma humana. Dilemas, conflitos, consciência da existência constroem, através do texto, da música e poesia, o diálogo entre a personagem e seu eu e entre a personagem e seus espectadores. Em um dia qualquer um ator toma consciência do seu lugar no teatro. Percebendo que não tem memórias lúcidas da sua vida anterior ao tempo presente e entendendo os seus dias repetido e comuns ele começa a questionar-se de fato é um homem ou uma personagem que tem a vida escrita e dominada por um autor desconhecido.

TRECHO:

Ator- (Cospe no chão, ajoelha-se e brinca com a sua saliva) A tua fé te salvou. Agora tu enxergarás! (Volta a brincar com a sua saliva. Vai olhando ainda ajoelhado, para os céus.) Deus de merda! Com todo o poder que tem por que deixa que suas criaturas façam o que bem entendem? (Levantando-se). E por que eu? Por que eu fui o escolhido para ser dominado por ti? Eu um mero ator que vive perdido neste mundo vazio. Eu que vivo a minha vidinha medíocre e que me perdi na repetição de uma rotina construída pelo desconhecido. Deus... Deus... Deus!!! Abra a sua boca e não fique calado diante da minha voz. Veja no que você transformou a minha vida. (Pausa.) Está certo. Não vou colocar a culpa em um ser que eu não vejo, não sinto. Um ser que eu não sei muito bem quem é. Sei que este espaço foi feito por ele. E esses reflexos são os reflexos dele. Vou me calar, vou tentar ouvir ou sua voz ou o silêncio. (Deita no chão). Não adianta brigar com o universo. Ele é maior do que eu. Não adianta jogar pedras no mundo, ele não é só meu. Quando o sol bater no meu rosto me alegrarei. Algo de especial vai acontecer... E se não acontecer.... Morrer será melhor que viver. Morrer não é pecado, pecado é não saber o que é a vida; é não saber viver. Ahh Deus atrevido. Deus infinito que debocha da cara dos seus filhos. (Levantando-se) O que farei para seguir tranquilo o meu caminho? O que farei para não continua sozinho?


Todos os direitos autorais reservardo a Van Sena.

sábado, 8 de abril de 2017

Apocalipse 3, 16

Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.
E na calmaria da preguiça jaz a inércia que não te movimentas.
Sou rebelde não pelo desejo da contenda vazia.
Minha rebeldia alimenta a minha existência.
Quem ama não desiste. Nem dos outros, nem de si.
Os mornos paralisam na desistência de cuidar do seu ego.
Apodrecem na amargura de não conseguir dialogar com a complexidade do mundo.
Eis os tormentos da minha alma que me apavoram.
Também são estes que me tiram do lugar de conforto.
Batem na minha cara para me despertar e eu revido.
Não quero apanhar da vida e me aquietar.
Labuto para aprender a aprender e praticar o que aprendi.
Desejo executar bem a minha obra.
Sem ser mais um sendo menos um a cada instante.
Sendo morno me consumiria na dor, em silêncio inoportuno.
Sem os conflitos não conseguiria enxergar a felicidade no simples.
A tormenta me sacode para eu me perceber então.
Estive quente. Estive frio. Ontem eu estava frio. Hoje estou quente.
Recuso-me a permanecer no meio desequilibrado.
Não falo, pois, do meio temperado.
Falo do meio morno. Que não cheira, nem fede. Não retrocede, nem avança.
Não é homem, nem velho, tão pouco criança.
Conhece pouco ou nada de si.
E por isso não se movimenta no espaço, no corpo, no espírito, nem na alma.
Não constrói a sua falta no âmago do outro.
Morno por conforto.
Morno por inércia.
Morno para dizer à vida que ela é que deve tomar a direção e o rumo.
E se ela te coloca no abismo o que se faz?
Se joga ou vai embora?
Ou por autopunição permanece olhando das alturas eternamente para o precipício?
A vida é muito curta para ser pequena.
Morno: não interfere, interage ou modifica.
Por que ser então?
Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Supérfluo

Nada é meu
Nem o sol, nem a terra, nem o fogo tão pouco o ar.
Nem as rizadas, nem as tristezas, nem o melodrama e o lamentar.
Nem a casa, nem as muralhas, nem a comida, nem o fogão
Nem a cama, nem o chuveiro, nem o sofá, nem o chão.
Nada é meu e nada vou levar:
Nem a espada, nem a luta
Nem a guerra, nem a fé
Nem o xaxará de o Omolu
Nem a beleza de Logun Edé.
Nem as rezas católicas
Nem as orações protestantes
Nem os batuques de candomblé
Nenhum colar de Gandhi.
Nem meus livros
Nem minhas crenças
Até minha torre de babel
Jazerá no esquecimento
Desfeita ao vento
Tal qual folha de papel.
Nem a arrogância, nem a benevolência
Nem a tragédia, nem a comédia
Nenhuma das minhas palavras
Livrar-se da perpetua inércia.
Minha doçura, ternura ou brandura
Não herdará o reino da Terra.
Nem lembrança ficará
Pois no fim tudo se encerra.
Pra que amar o ouro?
Pra que se vangloriar?
Na busca da humildade
A transcendência vai brilhar
Cresce o homem e sua alma
Plenitude do estar.
Hoje, hoje
Hoje agora.
Amanhã jamais será.
Nada é meu e nada levo
Nem agonia, nem solidão
Nem amores, nem amados
Muito menos a depressão
Nem amigos, nem namorado
Nem família, nem o ego inflado
Tudo vivo
Vivo então...